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Alguns anos atrás eu me incomodava. Juro que me incomodava. O sangue italiano subia, esbravejava, xingava, discursava… Depois, como nada ia fazer efeito algum, parava, me acalmava, e deixava para lá. As vezes registrava em algum artigo, aqui e ali. Mas o fato é que as coisas não mudaram. Ao contrário, as coisas pioravam. É na cueca, é na meia, sabe-se lá mais onde os vigaristas levam o dinheiro do povo para casa. O reino da falcatrua continua, os 300 picaretas com anel de doutor continuam, independente de quem está lá em cima. Entra P, saí D, é S e T, não importa a sigla. O dinheiro do povo vai embora.

É claro que tem maneiras divertidas de fazer isso. O que você prefere, ser roubado eletronicamente, com transferência lá para o paraíso suiço, ou alguma ilha com nome de passarinho, ou ver sua grana passear de cueca em cueca por aí? Será que os elásticos dessas cuecas são reforçados? O dinheiro é lavado depois? Lavado eu digo com água, né. Não a lavagem de dinheiro, a outra, que legaliza a grana suja. Não da saudade quando diziam: Tão lavando dinheiro! E você imaginava, opa, abriram uma boate, um puteiro, empresa de fachada, laranjas… Pois então, agora quando falam em lavagem de dinheiro, há de se ficar pensando se era aquela lavagem, ou se é na água mesmo, para tirar a nhaca da cueca. Ou da meia. Ou sei lá de onde o dinheiro tenha saído. Eu preciso ser sincero, não acredito mais em honestidade por aqui. E isso por algumas razões. A primeira delas é que essa situação corre o mundo. É uma condição humana de levar vantagem. Quando eu fico realmente muito alterado com alguma situação de roubalheira, eu imagino a seguinte cena: Homo sapiens sai para caçar. Mata uma capivara, corta um pedaço, bota no ombro e sai andando. Aí outro homo sapiens vê a cena, chega por trás, dá uma cajadada na cabeça do primeiro, e rouba o pedaço de capivara pronto. Então, quando quero me acalmar, penso que é da natureza humana passar o outro para trás. Daí me acalmo. Mas a segunda grande razão, a que me acalma mesmo, é olhar o povo. Esse povo sofrido, roubado, esse povo sem informação e tudo mais. Esse povo faz o que? Sim, porque pode ser sem informação, pode ser até analfabeto, mas se meter a mão no bolso do cara, ele vai saber. Ah vai! Então faz o que o povo quando a grana dele vai para a Suiça, ou dá uma banda na cueca alheia? Faz nada. Reelege os caras. Todos. Daí queremos cobrar o que? Se os caras fazem, e o povo coloca de volta? Vou eu ficar esquentando a cabeça? Não dá né! Então me acalmo. Agora, vamos combinar, meter a mão na grana, já até nem apavora mais ninguém, todos já estão anestesiados, e teve até uma pesquisa divulgada por aí, que relatava que mais de 70% da população poderia perdoar político que mete a mão… Mas na cueca? Na meia? Ora, por favor, vamos roubar com classe, já pensou se o Brasil acaba sendo o país onde lavar dinheiro significa água e sabão? Por favor senhores! Roubem com classe, respeitem o povo…

E já que o Brasil é criativo. E já que o Brasil é o país da bunda, alguem aí tem idéia de onde vai ser o próximo lugar que as crianças irão “colocar” o nosso dinheiro?

Os anéis do Brasil

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Foi então, escolhido o Rio de Janeiro. Em 2016, o Rio será o palco da maior celebração do esporte mundial. É claro que um evento desse porte traz a tona mil e uma discussões, conceitos, opiniões. Sediar uma Olimpíada impacta no país todo e de todas as formas, e a maioria das pessoas acaba se posicionando a respeito.

Um dos primeiros pontos discutidos é referente as condições do país. Como um país com tantos problemas na área da saúde, da educação, com tanta pobreza se dispõe a bancar um evento desses? Pois bem, eu acho mesmo que temos sim que bancar. Se vai ser gasto X ou Y, não é isso que faz diferença em um país tão rico que joga tanto dinheiro fora com desvios, má aplicação e outras “cositas más” que conhecemos tão bem. Não é isso que vai arrumar a casa do nosso país. Pelo outro lado, sediar uma olimpíada pode nos ajudar em vários pontos que temos dificuldades. A começar pelo nosso marketing externo. Só vendemos um Brasil de carnaval, futebol, de morenas peladas e corrupção. Vendemos uma imagem de favelas e praias, e não sabemos fazer diferente disso. Talvez o mundo nos mostre como fazer isso. Talvez o mundo nos veja, nos conheça realmente (não, o mundo não conhece o Brasil, acreditem!) e nos mostre como devemos nos vender. Talvez o mundo nos compre, sem precisarmos nos vender. Quantas são as organizações que são compradas, e nem precisam saber se vender? Agora, um país toda vida roubado e diminuído tem a oportunidade de colocar os anéis do esporte. Cabe a nós aproveitarmos essa oportunidade que as circunstâncias criaram e cumprirmos a nossa obrigação. A obrigação de dar condições do mundo saber quem somos, e fazer valer a criatividade que é um dos grandes diferenciais do nosso povo multi-racial. Talvez seja a oportunidade de deixarmos um pouco de nos concentrar nos nossos problemas, e passemos a analisar mais as soluções. O mundo todo estará nos olhando, curioso com esse gigante adormecido que possui todas as riquezas mas alimenta todas as pobrezas.

Então que venham os anéis olímpicos, que chegue ao Brasil o maior evento esportivo do planeta. Que o mundo conheça não apenas o que burramente divulgamos, carnaval, futebol e favelas. Mas que conheça tudo mais que temos por aqui, e não é pouco. Infelizmente sem rumo, e sem um povo sério para fazer funcionar. E apesar disso temos muito, à oferecer, e a ensinar ao mundo, que os gigantes do planeta também não são tão bons assim. Que venham os anéis, e que a cidade maravilhosa seja maravilhosa, e faça o mundo reler seu conceito do Brasil.

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