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Opa. Não era “habeas corpus”, a famosa expressão tão usada pelos advogados mundo afora? Era. Siginifica, em latim, “Tenhas o teu Corpo”. De volta, porque a justiça o confiscou. Porque você não se comportou, e a justiça te trancafiou. Então, vem o advogado e tchanam, habeas

Quando comecei a ler e ouvir sobre a questão essa, do jornalista que ficou “tendo seu corpo” de volta da justiça por quase uma década, lembrei de um cara roxo. Alguém lembra? Do cara aquele, que tem aquilo roxo, adesivo arco íris e tudo mais? É, acabou mal, eu sei, a fiat elba derrubou ele. Mas eu lembrei dele, e lembrei devido a uma expressão dele. O assunto era outro, mas a expressão veio à mente assim mesmo. “Nossos carros são carroças”. Eu lembro, foi uma comoção nacional. Coitadinhas das montadoras “tupiniquins”, pensaram todos. E então chegaram os japoneses, e então as montadoras que aqui estavam começaram a reagir, e então chegou mais montadora oriental, europeia e tal. E então que o “aquilo roxo” estava roxo de certo. Nossos carros eram carroças.

E eu lembrei dessa expressão por um motivo. Lembrei porque vendo aquela conversa toda, de “habeas corpus” do jornalista lá, que executou a namorada, ex-namorada, ou algo que o valha, eu concluí o que já sabia. Já achava isso, claro. Mas esse é um daqueles acontecimentos que fazem a gente lembrar do que sabe, mas deixa de lado por não ter muito o que fazer. Lembrei que achava a justiça brasileira tão carroça quanto os nossos carros, aqueles. Aí deram exemplos, de bandidos com crimes similares que foram para a cadeia rapidinho, e de lá não saíram (apesar de nossas penas serem bem, digamos assim, ridículas). Deram exemplos do Brasil, de bandido que não tinha grana para sustentar “habeas corpus”, e ficou na cadeia mesmo. O jornalista, aquele, para sorte dele, tem dinheiro. Então ele passou 9 anos fora da cadeia, sustentando “habeas corpus”. E ele teve seu corpo, fora da cadeia, por nove anos. Aí que fica evidente, como a nossa justiça é indecisa. Sim, porque o jornalista foi recorrendo, apelando, tendo seu corpo, e nessa ladainha, ninguém decidia nada. Não decidia porque o sistema todo é uma carroça e tal. Tudo muito impreciso, indeciso, cheio de brechas e tal. Aí mostraram um exemplo similar nos Estados Unidos. Corredor da morte, é lá que o bandido americano estava. Mesmo se não for executado, é perpétua. Que carrão, esse americano, heim?

É, eu sei, os americanos também ficam indecisos as vezes, e nós sabemos que alguns criminosos mais hediondos de lá passam anos brigando com a justiça, fazendo com que o governo gaste milhões em seus processos. É verdade. Mas eles ficam presos. Eles não “tem o seu corpo”, sabe?

É, eu sei. Isso tudo precisa uma reforma. Tem a política, a tributária, a judiciária, tem tudo, na real, né? Mas enquanto a turma lá da “casa”, mantém a carroça andando, os bois seguem aqui embaixo, fora da casa, puxando. A carroça. E com os bandidos aqui também, do lado de fora, tendo seu corpo.

Iustitia Habeas

Imagem da justiça: Marília Chartune

Em Brasília, 19 horas.

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Dilma Rousseff

Pela primeira vez, na curta histórica política brasileira, o bastão do poder descansa nas mãos de uma mulher. É fato, sem tirar méritos, que Lula foi tão ou mais importante nessa campanha do que a própria candidata, a ex-ministra Dilma, que acabou vencendo Serra neste dia 31 de outubro, dia das bruxas, sagrando-se a representante do Brasil e seu povo pelos próximos quatro anos.

Não se pode dizer que foi uma campanha limpa, apesar de que outras já foram bem piores. Mas como o tempo passa, e em teoria estamos sempre evoluindo ou não, seria razoável termos ouvido mais propostas e menos pancadas. Vimos de tudo, e ontem vimos também o resultado. As pesquisas se confirmaram, e o presidente mais popular dos últimos tempos fez sucessão, empenhado pessoalmente como se fosse sua própria reeleição. E não foi uma tarefa fácil ao nosso atual presidente, se lembrarmos das pesquisas iniciais da corrida presidencial. Parecia uma eleição fácil para a oposição, que na verdade nunca fez papel de oposição de fato. Não com a força que o governo atual exerce, quando do outro lado do balcão. Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais o governo Lula, mesmo com escândalos como em qualquer outro, vide mensalão, chegou com tanta força e popularidade ao final de sua gestão. Muitas cabeças caíram pelo caminho, é verdade, mas nenhum arranhão alcançou a entidade máxima do país. E o Brasil cresceu economicamente, como cresceram tantos outros como o Brasil, como caíram tantos outros, mas o Brasil cresceu. Cresceu e venceu em algumas apostas, como a polêmica mas de fortíssimo apelo popular política assistencialista, ancorada na bolsa família. Muito se fez na educação, muito se investiu e fomentou a construção civil, a de infra estrutura, poderosa geradora de empregos para menores capacitações. E o Brasil é um país onde falta capacitação. Muito se fez, muito ficou por fazer. O Brasil é grande.

Terminado o pleito, algumas curiosidades ficaram, como o mapa acima, e como o índice de abstenção de 21,5%, puxado pelo feriadão que hospedou a eleição. O mapa acima publicado pelo portal UOL durante toda a cobertura da contagem de votos revela o desempenho nas urnas dos candidatos: Em azul, estados onde Serra foi vencedor. Em vermelho, estados onde Dilma sagrou-se Presidente da República. É evidente que no calor da hora, durante o resultado, este mapa caprichosamente dividido em dois teve consequências nos meios de comunicação instantâneos das redes sociais de amplo alcance, desencadeando questões delicadas e profundas acerca do nosso país. Com índices de votação bastante pronunciados nas regiões Norte e Nordeste, Dilma ganhou fôlego para emplacar sua vitória. Claro, outras regiões, como Rio de Janeiro e Minas (curiosamente a terra de Aécio Neves, teórico cabo eleitoral de Serra) também foram de Dilma, mas o pulmão da vitória acabou sendo a região Norte e Nordeste, apesar que estado nenhum elege presidente sozinho, e as votações ocorreram em todo o Brasil. Até aí tudo normal, já que é corriqueiro cada candidato ter seu nicho, sua região, mas então as possibilidades de comunicação de massa disponibilizados pelas redes sociais acabaram trazendo pontos tristes para este resultado, com ofensas e ataques entre regiões do mesmo país. É evidente, assim como em qualquer país com um território do tamanho do brasileiro, que existem muitas diferenças culturais, muita diversidade étnica (não é a toa que o passaporte brasileiro é um artefato de luxo no submundo, pois qualquer pessoa do mundo pode se passar por brasileiro, devido a nossa diversidade étnica) e que isso acaba tendo desdobramentos de leituras e posicionamentos políticos. Normal. Anormal são as reações e ataques sobre estes posicionamentos entre as regiões. Cabe reflexão, discussão, e revisão de conceitos frente ao que circulou, principalmente no twitter, no dia da eleição.

Mas culpas e excessos a parte, temos um novo rosto no comando do Brasil, e pela primeira vez é um rosto feminino. Dilma tem o desafio de manter o Brasil no caminho que o momento mundial permite que seja trilhado, o caminho dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) que ganham espaço no cenário mundial, que ganham relevância e voz a nível de planeta. Que os caminhos do Brasil mantenham-se em direções sempre democráticas, sem excessos, sem exagerar na simpatia por vizinhos nada democráticos que andam soltos por aí, e que prove-se de cima para baixo, que a entidade presidência é para todos, com todos, em toda a homogeneidade heterogênica que o Brasil precisa e é.

Simpáticos ou não simpáticos, temerosos ou tranquilos, furiosos ou radiantes, para todos temos agora uma só pessoa carregando a bandeira do Brasil, uma só pessoa que deve dar o exemplo e ser toda por todos, e buscar o todos por ela. Porque o Brasil é um só, e torcer contra é, com o perdão da palavra, cuspir para cima. A pergunta está respondida nas urnas, agora vem o tempo de cobrar, fiscalizar, e ajudar a construir. Para quem ainda acredita em política, uma nova era começa. Para a oposição, que seja oposição o tempo todo, porque ao final do jogo, não adianta praguejar contra o juiz. Para os que não acreditam mais na classe política, tudo bem. É dia de trabalhar, como qualquer outro.

Sorte Brasil. Porque presidentes vão e vem, mas quem fica é o verde e amarelo.

Em Brasília, 19 horas…

Imagens: Portal UOL
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