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O Mensalão e a Pizza Fria

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Durante um tempo eu quis evitar, confesso. Reneguei as origens do blog, os primeiros posts, e deixei de falar de política. Voltei na séria de protestos. Aqueles, impressionantes, impactantes, um dos maiores da história, um dos mais observados no mundo dos últimos anos. Até porque não tinha como não comentar, não é mesmo? Ia ser se privar de viver um dos momentos mais emblemáticos da nossa história. Porque o Brasil tem essa particularidade, a de não ter derramado uma só gota de sangue.

Parece conversa sem pé nem cabeça, mas a união de um grupo de pessoas, na minha opinião, claro, depende muito do que elas viveram juntas. Se foi só festa, são amigos de gandaia. Se foi conquista política, são aliados. Se por décadas viveram juntas, é meio que uma família, e tal. Mas como 200 milhões não vivem abraçadinhas no mesmo prédio, jogando no mesmo campinho de futebol, um país não se forma assim. Bom, e tem o sangue. Porque festa é uma coisa, política é outra, conviver é diferente… Mas ter que se abraçar para sobreviver, ter que defender o lado para não morrer, e contar que o vizinha defenda bem o dele para que você não morra junto com ele, aí, é diferente. Mas muito, diferente. Em algum momento já devo ter escrito sobre isso: O brasileiro ganhou, e manteve o Brasil de graça. Não teve sangue.

E aí vem a teoria maluca. Tudo que é fácil demais, não tem a devida valorização. A Europa toda viveu em guerra. Várias, por séculos, milênios. Os Estados Unidos se arrebentaram por dentro, até decidir como ia ser. As grandes nações passaram por isso. Os povos milenares sempre derramaram muito sangue para estarem aí, para defender suas divisas, suas terras, seu povo, suas bandeiras. Nós ganhamos. Fomos sempre roubados, é verdade. De fora e de dentro. Mas nunca nos importamos com isso.

E a nossa política é meio que herança disso tudo. O brasileiro é um povo que nunca sangrou, nunca fez sangrar, e nunca se importou em ser roubado. Nunca mesmo. Os caras pintadas? Ah, vá. Eu tava lá. Foi um dia colorido no parque, pra cima de um presidente sem partido, sem apoio, que mexeu com a massa política, com a mídia, e pagou o seu preço. Ninguém nem olhou feio para o povo. Até isso foi fácil no Brasil. Espia lá fora o que é um povo se levantando contra um governo que bate nele. Vê lá quantos morrem tentando. Aqui, nem bordoada teve. O Brasil nunca sangrou.

E já que tudo foi fácil, e ninguém se importa com nada, e se alguém se importa não faz nada, ou se faz alguma coisa, é pouca porque o sistema podre não deixa fazer muito, e se tenta fazer muito acaba perseguido e destruído pela massa podre, tudo fica na eterna gandaia. Teria que acontecer algo grandioso para a mudar a corrupção brasileira. Talvez acabar o mundo. Talvez. Mas as vezes temos uns relâmpagos, uns rompantes de lucidez, alguns momentos de deleite, em que a gente vê a turma que tanto apronta, levar um tombo ou dois. O mensalão foi mais do que provado, evidenciado, todo mundo sabe que foi real. E que provavelmente continua sendo real, em escala menor, através de favores e liberações de verba ao invés de cash. Mas independente da moeda, a questão é a mesma, é real, e duvido que tenha terminado.

Então nós estamos em menos de um ano vivendo dois momentos desses rompantes felizes. O primeiro foi a onda de protestos, que até deu em quase nada, mas mostrou que o brasileiro tem sangue, e que se a gandaia continuar do jeito que está, alguém vai acabar levando um ruim da massa boa. E agora, o Barbosão tocou os mensaleiros na cadeia. Foi para casa no feriado, e despachou a bomba. As cabeças pensantes do maior partido do Brasil foram para o xadrez. Ainda assim, comemorando, recebendo apoios (inclusive do ex-presidente mais emblemático dos últimos anos), de punhos em riste. Não envergonhados, como seria em algum país mais sério. Não de cabeça baixa. Orgulhosos, de punhos fechados, como se estivessem entrando em mais uma batalha pelo bem do país. Né? Sabe porque? Porque o brasileiro não se importa. Não fez foguetório, não foi lá na porta da cadeia gritar palavras de ordem, talvez boa parte nem lembre mais do que se trata.

Ainda tenho sérias desconfianças de que essa história termine em pizza. Mas já houve um substancial progresso. Muito devido a coragem do Barbosa, é claro. Porque no Brasil, o engraçadíssimo Brasil, quem decide o futuro desse tipo de político é a turma que foi indicada pelo amigo deles. Que sempre apoiou, e ainda apoia eles. O ex-presidente que não sabia de nada. No Brasil, o executivo é quem escolhe quem manda no judiciário. Parece piada. Mas no Brasil, é isso aí. E quanto a pizza, se ela aparecer, pelo menos não vai ser devorada quentinha e aos risos dos medonhos, como SEMPRE acontece. Se aparecer, vai ser devorada fria, e com caras amassadas e quadradas.

 

 

A Ferro e Fogo.

Foi em 23 de janeiro de 2006, no terceiro post do Blog, que nasceu pra falar de Brasil, que escrevi A Ferro e Fogo. Eram outros tempos. Iguais aos últimos anos. Diferentes dos últimos dias. No artigo original, eu falava justamente da empáfia dos políticos. Dizia que só com ferro e fogo, pra essa horda de canalhas começar a trabalhar. Em verdade, confesso, não era muito esperançoso. Sempre duvidei um pouco, ou um muito, da capacidade do brasileiro chutar o balde. Duvidava que era possível. Achava que sangue mesmo, quente, nunca apareceria no Brasil. Que tudo seria como sempre foi. Povo desleixado politicamente, conformado, mandado e obediente. Políticos prepotentes, semideuses inatingíveis que fariam, pra sempre, o que quisessem com o nosso dinheiro. Sabia que só mudaria com ferro e fogo. Não via, no Brasil de 2006, nem Ferro, nem Fogo.

O Gigante Acordou.

Então um movimento pequeno, até regular, começa a fazer barulho na capital, aquela longe demais das capitais. Uma pequena manifestação movida pela força política nasce em Porto Alegre por um motivo legítimo. Vence a batalha. A gigantesca São Paulo replica. Entra no jogo e arrasta o grande Rio e várias outras mais. O facebook se torna o veículo. O povo vai pra rua. A maioria assiste perplexa, sem entender. O movimento cresce, é um movimento sem bandeira, sem dono, sem líder, sem lenço nem documento. É um fenômeno em todo o Brasil, fora dele também. O mundo assiste, entende, e apoia. Não há mais como controlar a dimensão do que vive hoje o Brasil. O clique aconteceu. As pessoas se deram conta. Acharam o caminho. Viram que é possível. As ruas encheram, tremeram, vidros quebraram, sorrisos debochados murcharam, gritos de revolta e indignação ecoaram. Os palácios do poder foram cercados, atacados, os recados foram dados. Com o povo ninguém pode. Todo o resto é frágil, quando o pais está nas ruas. De uma despretensiosa faísca, a maior fogueira dos últimos anos se ergueu. O Gigante simplesmente Acordou.

A Política Tremeu.

Mas a classe política sempre achou que nada ia mudar. Nunca temeu. Sempre fez e desfez. Porque acreditaria, temeria, dessa vez? Temeu. Tremeu. Era uma das grandes dúvidas. Se a classe política ia finalmente entender, ou tudo precisaria se agravar, ainda mais. A política tremeu. Eles souberam que eram o alvo. Seus partidos eram odiados, expulsos e exilados do movimento sem bandeira. Só a verde a amarela entrava. O mundo assistia na Copa os estádios sacudirem com o hino cantado a toda voz, sem se deixar interromper. Seus palácios atacados, apedrejados, cercados e intimidados. OS próximos, fatalmente, seriam eles próprios? Não pagaram pra ver. A presidente se perdeu, tentou se achar, ainda tenta se comunicar, embora sem saber pra quem, e como falar. O congresso trabalhou. Seguiu sem pestanejar e nem discutir, os desejos das manifestações. A PEC da impunidade caiu, respaldada por apenas 9 delirantes agora inimigos da nação. Vários outros temas foram votados, até deputado preso teve. Nenhum partido me representa. Vocês não me representam. A reforma política está em pauta. Ninguém sabe como fazer. Todos sabem que vai acontecer. O voto secreto na caverna obscura das leis caiu. As máscaras estão nas ruas, pra dizer que as máscaras dos representantes do povo devem cair. O recado está sendo entendido. Pelo menos por enquanto.

O Brasil tem Jeito.

As proporções alcançadas pelo movimento foram muito superiores a qualquer alucinada previsão. Isso é certo. Então é difícil prever se o auge já passou, e por quanto tempo tudo isso vai durar. Mas pela lógica do jogo, o movimento deve começar, agora, a diminuir. O número de pessoas nas grandes cidades, a quantidade de manifestações de grande porte, e o impacto na mídia e no país. O que deve acontecer é a multiplicação de pequenos atos. Com objetivos mais específicos, com alcance menor, mas localizado. A invasão da câmara dos vereadores de Santa Maria, por exemplo. Que quer limpar a bagunça que os vereadores fizeram na CPI da Kiss. É assim que vai ser. Focadas, objetivas, mas as manifestações não devem parar. As gigantescas? Esperamos que voltem sempre que os políticos clamarem por elas. Que pisarem na bola. Que esquecerem que agora o gigante acordou, e sabe o endereço deles. Agora, é acreditar que as contas serão cobradas, que as mentiras serão desmascaradas, e principalmente, que o voto vai fazer uma belíssima faxina. É só o que falta, pro Brasil achar o seu rumo…

A Cobrança Não Pode Parar.

Não foi, ou talvez até tenha sido, mas quis o destino que não importa por que meio, ela virou um dos símbolos das manifestações. A máscara de V, de vingança. Quando saiu pra rua, o povo não quis ouvir mais nada. Não quis aceitar esmolas de 20 centavos, discursos vazios, promessas idiotas e limitadas. Na rua, o Brasil quer tanto que nem consegue listar. Quem tanto, que o governe nem sabe o que dar. Como dar, quando dar. Só uma coisa é certa: Nada pode parar. Uma onda acalma. Quando precisar, outra deve se manifestar. E se for pelos mesmos motivos, mais forte ainda deve quebrar. Uma onda pode, e deve acalmar. O ciclo, o gigante, nunca mais pode parar.

"E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz...
Sofrer..."