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A Copa América já terminou, agora, são menos de 2 anos para a Copa do Mundo de Futebol, aquela, no Brasil. E como andamos? Como será a nossa Copa? E claro, quanto irá custar? Ou melhor ainda, como irá custar? Teremos sucesso? Pagaremos um mico mundial? Ou simplesmente passaremos por essa, e com a taça no bolso, nem lembraremos das dificuldades enfrentadas, muito menos do custo do certame?

A julgar pelo futebol apresentado nos últimos anos, o preço nos diz o resultado. Isso mesmo, o preço. Cada atleta da seleção canarinho custa mais em um mês do que 2 ou 3 anos de um executivo médio, e do que uns 13 anos do que se considera hoje a classe média brasileira, só para não ir muito longe nas contas. Cada profissão é uma profissão, sabemos. Que executivo leva milhares a um estádio para assistir ele tomar decisões corporativas? Nenhum. Também sabemos. A discussão aqui não é se é justo ou não essa gurizada ganhar tanto assim, porque salário se paga com resultado. Portanto, se o atleta faz girar milhares de vezes a roleta de entrada do seu clube, ok, que ganhe o que o clube achar que ele vale. Nenhum problema com isso. A questão é, como essa turma lida com isso? Eles são preparados para representar o país, e esquecer dos zilhões de euros em suas contas? Ou a seleção é um momento de recreação na vitrine do futebol mundial? Os atletas estão lá para ganharem pelo Brasil, ou para garantir um bom valor na próxima troca de clube? Quando olho para o time em campo, vejo um Lúcio vestindo a camisa canarinho. Talvez alguns mais. Mas certamente não os 11. Não, os 11 não. Muitos estão lá pelo preço. E o preço, ah, o preço. Esse não faz time. O Real Madrid que o diga. Em 2014, teremos um time, ou um amontoado de altos preços?

Ah, mas que conversa é essa meu amigo! Eu lá quero saber quanto o atleta ganha? Quero é ver meu time campeão,  o resto, não me importa. Certíssimo. Por isso é que falaremos de 2014, da nossa Copa, e das nossas consequências. E o primeiro ponto da nossa Copa, é o palco. Ou melhor, os palcos, os estádios, os templos do futebol. Estádios são grandes obras, exigem grandes esforços, principalmente financeiros. Isso, se tudo estiver certinho, projetado, planejado, contratado e em plena execução. Mas heim, não falta pouco tempo para tudo isso? É, falta. Mas temos boas empresas, rápidas. Costumo dizer que, em engenharia, tudo é possível. Tudo mesmo. Mas é claro, esse tudo tem um custo. Quanto mais tudo, mais custo. E esse tudo inclui prazo, porque quanto menos tempo se tem, mais esforço, menos projeto, menos planejamento, e tudo (de novo o tal de tudo) fica mais caro. E as obras dos estádios estão meio devagarinho, não estão?  Algumas sim, outras não. Outras, nem começaram. E qualquer coisa se falando em estádio de futebol, que não tem mais de 36 meses de execução, é correria. De execução. Nem falei de projeto ou planejamento. É, mas os estádios ficarão prontos. Todos? Não, algum deve ficar para trás, e os jogos transferidos para outros. É, no fim, vai funcionar. A que custo? Ah bom. Atrasou, o custo pegou.

E os elefantes? Tem também. Tem estádios tão grandes e tão caros, em cidades sem público para depois dos dois ou três jogos que o estádio terá na copa, que é quase uma aberração. Mas né? Os interésses. Uhum, com acento e tudo, assim mesmo. Como o Tio Briza falava, lá nos outros anos. E aí tem também os aeroportos. Esses sim. As rodoviárias gigantes que aqui no Brasil ousamos chamar de aeroportos. Hoje, sem feriado, sem fim do ano nem datas especiais, eles já estão no limite. Limite inferior, né. Nas datas, cruzes. Vira jogo de sorte. Ou de azar? Azar de quem usa. Então esses, que deveriam estar sendo duplicados, triplicados, que serão muito úteis depois, ah esses estão ainda mais atrasados. Não tem nada acontecendo. As aeroviárias gigantes nem saíram do papel. Vão sair? Quem sabe. Uma ou outra. Porque não é palco, e meio que funciona, na sorte, no azar, aos trampos e acidentes, vão levando, vão voando, as vezes vão caindo também.

E aí vem a tal da infra, a infraestrutura. Sabe? Eu conto. Parece meio piada, sabe, que as cidades precisem se preparam para 30 dias de visitas, mexer nas ruas, no sistema de trânsito e tals. É que assim, fica meio lógico, meio que na cara, que se precisa tanto mexer, é porque não funciona mesmo, sabe? É, eu sei, é muita gente em pouco tempo, é uma dose concentrada. Mas se tivéssemos boas vias, um transporte público eficiente, né, nem precisaria muita coisa. Mas precisa, porque vai trancar tudo. E os gringos vão ficar com o ingresso na mão, lá nas aeroviárias, e lá do outro lado da cidade, que já entope depois das 17 horas todo dia. E vai ter aqueles buracos no estádios, aqueles sem torcida dentro, que tinha lá na Copa da Africa e ninguém entendia porque. É porque as pessoas não conseguiam se mover, ué. E ficavam lá, com o ingresso na mão.

De fato, a vergonha do Brasil na Copa é meio que certa. A dúvida é, se ela será na bola mesmo, com nossos euronálios que não entendem a responsabilidade de vestir a amarelinha, e o que ela significa para esse povo; Se será nos estádios feitos as pressas, na correria, se é que todos ficarão prontos; Se será no transporte aéreo, ou na falta dele; Ou se será na infraestrutura, vias, acessos, transporte público e tal. Há quem diga que será em todos. E esses, nem são os pessimistas. Os pessimistas já estão em outro nível, nesse jogo da bola. Há quem diga que o fiasco se dará em dois ou mais, outros apostam que no fim o jeitinho brasileiro dará conta de tudo, mas o que é certo mesmo, mas muito mais do que certo, é que essa Copa vai custar muito mais do que deveria. Porque obra não tem mágica. Ou tem projeto e planejamento, ou tem alto custo. E nem falei dos interésses. Mas isso, ah, que barbadinha. Tiramos de letra. Afinal, esse é o nosso dia a dia. Morar no Brasil, é ver tudo custar mais, mas muito, muito mais, do que realmente deveria.

Sorte Brasil, que o mundo, agora que nos acha fortão e promissor, não tenha sua expectativa depositada nos pênaltis, presa nas aeroviárias, parada no trânsito, ou entrando em estádio semi-pronto em jogo de Copa do Mundo. Mas viu, mundo, não reclama não, viu, senão, eu tiro tua credencial!

A Flauta da Bola

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A flauta é um instrumento musical de sopro formado por um tubo oco com orifícios. Bastante antigo, a execução de tal instrumento consiste no ato de soprar o interior do tubo ao mesmo tempo em que se tapam e/ou destapam os orifícios com os dedos.

Fonte: Wikipedia

No futebol, flauta é também um instrumento muito antigo. Antigo, e poderoso. Muito poderoso. Lembro da flauta, lá dos tempos do 302, o clássico apartamento onde tudo começou na Capitolândia. Futebolisticamente falando, eram tempos tricolores aqueles, eram tempos de Felipão se inventando, tempos de vencer todos os jogos, tempos de amassar a seleção do Palmeiras, tempos de levantar as taças, tempos de Libertadores, era, mais precisamente, 1995.

Eram tempos azuis, mas também eram tempos laranjas, tempos holandeses, eram tempos de Ajax há anos sem perder, eram tempos de Ajax sendo praticamente a seleção da Holanda. Então chegou a hora, chegou Tóquio, e então chegou a temporada das flautas. Rivarola expulso, 0 x 0 em tempo normal, 0 x 0 na prorrogação, e chegou a temporada dos pênaltis. Só quem passou lembra, só quem assistiu sabe, só quem chorou nunca esqueceu. Foi a maior sinfonia de flautas da história de Porto Alegre. Foi uma invasão de flautas. Antigas, modernas, automáticas, a Holanda praticamente se mudou para o Brasil. Se via mais camisetas do Ajax na capital gaúcha, do que gaúchos na rua. O Inter desbotou, e virou laranja. Na aula, frascos dos produtos de limpeza Ajax se faziam presentes em todas as salas, em todos os andares. Claro, volta e meia algum flauteador acabava sendo obrigado a beber o líquido que tanto idolatrava, justo. Mas o fato é que foi a maior de todas as flautas. Os foguetes não cessavam, dia, noite, madrugada, dia sim, dia também. Foi a flauta do século. Só quem viveu sabe. Só quem chorou nunca esqueceu.

Lembro perfeitamente quando saí de casa, algumas horas após o jogo, enrolado na bandeira tricolor, mão enfaixada (sim, um armário destruiu ela), acompanhando meu primo rumo a casa de outro amigo, atravessando a praça da matriz. Na primeira visão exterior do dia (o jogo era pela manhã, cedo), um colorado caminhava, leve, com a camisa do Ajax vestida. Sorte, dele, estar do outro lado da rua. Sorte, dele, perceber a fúria que tomava conta dos gremistas arrasados do outro lado da rua. Sorte, dele, que conseguiu sumir na quadra sem esboçar uma reação sequer, sem mexer um músculo sequer. Azar nosso, que ainda iríamos sofrer a maior flauta de toda a história.

Lembro perfeitamente quando meu outro primo, terceiro morador do 302, o Vanzolin, chegou em casa, com dois frascos de Ajax, urrando pelo apartamento. E ele nunca havia ido ao Beira Rio. Não sabia o nome de mais de um jogador colorado. Mas tocar flauta, ele sabia. Ah sabia. E tocava, dia e noite ele tocava. Inconsolável era o momento. Lembro das horas que não conseguia sair do quarto, lembro da vizinhança tentando me arrastar de lá, lembro das parcerias árabes inventando que no ano que vem teria mais. Mas lembro mesmo da flauta. A flauta, é um instrumento muito forte no futebol. Não se pode esquecer da flauta.

É, então o mundo, que é redondo (e azul) girou, e agora, o Mazembe soprou o interior do tubo colorado, tapando e destapando os orifícios com a chuteira, fazendo 2×0, e nem levando o título, porque ainda era semi-final. 15 anos depois da maior flauta da história de Porto Alegre, 15 anos após a flauta tocada por um dos lados de uma das maiores rivalidades do futebol mundial, é chegado o momento de pagar. E pagar caro, e pagar não apenas perdendo uma final de mundial, que é normal, porque quando um ganha, o outro perde. É pagar nem indo para a final, é pagar picando de bunda no jogo de aquecimento. É pagar, a flauta de 15 anos, a flauta que já debutava, é pagar, na mesma moeda, a maior flauta do estado.

Flauta é assim, um dia cá, outro lá. A maior das flautas, pela lei da física, já que veio, um dia iria voltar. E voltou. Bundando no gramado de Abu Dhabi.

Eu sabia, naquele dia fatídico de 95, que embora o Inter precisasse ser campeão da Libertadores para isso, mesmo assim, eu gostaria, queria, devolver aquela flauta…



Comemoração do Goleiro Kidiaba, do Mazembe