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    A Copa do Tatu-Bola

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    Existem coisas completamente inexplicáveis nesse mundo. E o Brasil, como já estamos cansados de saber, é um território absolutamente rico nesses artefatos. Então a Copa da Bola está desembarcando logo aí, e claro que tínhamos que abrir a função apresentando mais uma dessas bizarrices com as quais somos acostumados a conviver. O Tatu.

    Porque somos um país árido, feio, acinzentado e sem graça. Porque somos sérios, praticamente não fazemos barulho, tímidos, sem expressão no rosto. Somos um país pequeno, que quase não se reproduz, e comemos muito mal. Só que não. Não somos absolutamente nada disso. Não somos representados em absolutamente nada, pelo tatu bola. Bom, tá certo. Tem uma coisa que sim, nos liga ao tatu-bola. Porque o tatu-bola é um covardão que se enrola pra se esconder de tudo. Isso realmente somos. Somos covardes em não tomar conta desse país massacrado pelos tatus espertos (lembrando que esperto não é inteligente) que dominam esse país. Nos enrolamos no nosso próprio orgulho inexistente, cavamos uma cova rasa pra fazer de conta que não é conosco, tudo o que é feito do nosso país.

    O fato é que temos a maior floresta do planeta, o país mais verde e amarelo, alegre, a maior festa popular do mundo, temos um território gigantesco, um povo via de regra sorridente, jovem e cheio de vida. Somos qualquer coisa, menos um tatu bola. Poderíamos ser inquietos macacos, ou araras coloridas, tucanos, ou onças pintadas. Qualquer coisa que nos representasse melhor. Menos, um tatu bola. Não há, de forma alguma, qualquer justificativa minimamente razoável para a escolha lamentável de um bicho tão sem graça, tão sem nada, para nos representar. O tatu foi proposto por uma ONG relacionada a Caatinga, que queria expôr a possibilidade de extinção do bicho. Isso no país que tem a Amazônia. Nesse imenso país que tem de tudo e mais um pouco. Os animais em extinção estão em todo o planeta, e merecem toda a batalha, toda a atenção. Mas daí a representar um país que nada tem a ver com ele, é demais. Sobre bobagem. E a gente tem essa coisa aí, em que a ideologia deixa tudo cego e desprovido de argumentação, e acaba numa “bestagem” sem tamanho.

    O tatu-bola é pequeno, não cava bem chegando a ter que usar buraco de outros pra se esconder, come formigas, cupins, larvas e outras coisas nada apetitosas, é totalmente local, já que só existe na caatinga, sua única defesa é se enrolar no próprio corpo, gera um só filhote por gestação, enfim. O boneco que fizeram, até ficou simpático. Mas olha aí abaixo, a imagem real do que representa o gigantesco, colorido e barulhento Brasil na Copa do Mundo. Dá pra entender? Conceber? Aceitar?

    Vai. Vai se enrolar no próprio corpo, Brasil. Porque enquanto o mundo espera que tenhamos o comportamento do vídeo abaixo perante os demais países, nós escolhemos o TATU-BOLA pra ser o nosso rosto no evento de maior visibilidade do planeta. Bom. Tem gente que sabe se vender. E tem gente que é absolutamente especialista em se diminuir.

     

    Senta lá, Brasil.

    Não há nada maior. Nada. Falando em esportes, a Olimpíada é o que há de maior e mais importante. Copa do Mundo de Futebol? Sei, para o Brasil, que está sempre na cabeça. Mas nem se compara em complexidade, importância e representatividade, a Copa e a Olimpíada. Tanto que a Olimpíada carrega uma Copa do Mundo de Futebol dentro dela. São milhares de atletas, inúmeras modalidades, uma população inteira de dedicados atletas de ponta disputando o ouro Olímpico. E é claro que Londres tem feito bonito. Não seria diferente em um dos países mais charmosos e organizados do mundo. E logo é a nossa vez, de sediar o maior evento esportivo do planeta. Nós e nossa bagunça, nossa incompetência, nosso jeito adolescente irresponsável de tratar as coisas. Estamos atrasados em tudo, tanto em infra, organização, quanto no principal: O esporte. Somos um país limitado ao futebol. Um que outro esporte tem gerações que se destacam. Mas no geral, só rola bola no campo de grama.

    Em Londres a briga é americana e chinesa. Eles é que lutam no quadro de medalhas. A superpotência contra a superpopulação. Grã-Bretanha segue de longe, seguida da Coréia (que virou o jogo por lá drenando todos seus recursos na educação) e outros países europeus. Nós hoje somos a sexta economia do planeta, uma das maiores populações, e não somos nada. Absolutamente nada em uma Olimpíada. Um atleta de ponta americano tem mais medalhas sozinho do que o Brasil em duas ou três Olimpíadas inteiras. O Brasil é uma piada nos esportes. E esporte não é lazer. Não é não. É um indicativo de como o país é, do que ele tem, do que ele faz. Por si mesmo, e pelo seu povo. Ah sim, para o seu povo. Pouco sabemos dessa última frase. Dizer que o país está bem, está no caminho, está crescendo, Ok. Conversa fiada. O Brasil não cresce mais, pra começar, porque não pode. Não tem infra pra crescer. Se crescer mais, tudo pára. Não tem estrada, não tem aeroporto, não tem leis funcionais, não tem segurança, não tem condições básicas. Nem esporte. Só tem o custo Brasil. Esse sim. Pra pagar toda a incompetência de quem rege nossos recursos. Chamam de custo Brasil, o custo da incompetência. Mas esporte, nada. Só bola.

    Na nossa Olimpíada passaremos vergonha. Isso é um fato hoje completamente irreversível. Certamente nossa estratégia será mascarar nossa falta de tudo mostrando escolas de samba, mulatas peladas e muito samba. A abertura da nossa Olimpíada poderia ser em Parintins, com o Caprichoso e o Garantido fazendo as vezes. Ou mudar as datas do carnaval e colocar a turma toda na Sapucaí. São festas populares que o mundo não tem similar. São espetáculos gigantescos, maravilhosos, absolutos, sem igual. Mas não podemos ser só isso. Não um país da nossa magnitude. Temos dinheiro, temos uma gigante população, mas não temos direção. Somos regados a pão e circo tal e qual os romanos dos tempos de imperadores medianos.

    Nossos atletas, ah os nossos atletas. Ou eles são heróis, ou são de uma parcela da população que quase não reflete a realidade do Brasil. A maioria luta sozinha, sem dinheiro, sem suporte, sem onde treinar, sem nada. Nossas empresas em sua maioria não financiam nada. E o governo? Ah o governo. O governo deveria beijar os pés e a bunda dos atletas que carregam sozinhos a bandeira desse jovem bagunçado país. Campeões Olímpicos tem seus pais vendendo seus próprios carros, para poderem competir. Um vexame. Só não é maior a vergonha do governo do que a cobrança que esses verdadeiros heróis da resistência sofrem de um população escondida, omissa, covarde, que critica sem entender sua responsabilidade na nossa ridícula posição no quadro de medalhas. Fosse uma população que cobra a conta, que age e reage, não teríamos um julgamento de mensalão dando mais audiência do que o maior evento esportivo do mundo. A culpa é nossa. A culpa de termos esses políticos, essa justiça, é nossa, e de mais ninguém. Porque o ser humano é assim. Se deixam, ele se aproveita. E a gente deixa. E gosta e acha a coisa mais normal do mundo. E eles enchem os bolsos, e aumentam o custo Brasil. Aquele custo, da incompetência. Miúdos, é o que somos. Miúdos, é o que o esporte prova que somos. Miúdos, é o que seremos na nossa Olimpíada.

    Um tristeza escrever sobre um evento dessa magnitude, com tantas críticas. Mas não há como fazer diferente. Ler por aí reclamações do nosso desempenho Olímpico, com cobrança às pessoas que se dedicam ao esporte, que dedicam suas vidas, sua juventude ao esporte, críticas ao nosso verdadeiros heróis, é demais. É coisa de quem nem sonha o que é necessário para ser atleta de ponta. Não tem ideia da disciplina, do que se abre mão, das infinitas renúncias necessárias a um atleta para chegar a uma Olimpíada. Vale aqui um belíssimo Cala a Boa Brasil. Abra o bocão pra criticar, quando é preciso. E oportunidades, vamos combinar, não faltam. Todo dia. O dia todo.

    Nada representa melhor o que é a postura do Brasil, e aqui leia-se o povo brasileiro, do que a declaração da Rosicléia Campos, a vencedora treinadora da seleção feminina de judô:

    “O povo brasileiro é ignorante no sentindo de ignorar o esporte, a gente fez um trabalho de quatro anos, se a gente olha os comentários que as pessoas fazem, a gente tem vontade de matar. Isso deixa todo mundo muito revoltado, todo mundo está aqui pelo esporte. Eles são heróis mesmo quando perdem, olha o passado deles”

    “É muito triste para a gente ler depoimento de brasileiros que não sabem do que estão falando. Nosso País é um País sem passado. Fica a dica, criticar sem propriedade é feio. Isso é coisa de ignorante, no sentido de ignorar o trabalho”

    “Nosso País é um País sem passado.” Perfeito. E com a nossa postura, é também sem futuro. Procure saber.

    Hoje é isso. Logo, logo tem mais.

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