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Beleza Americana

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O filho é velho, mas a essência é a mesma. Vamos passear, por uma visão americana, do seu próprio “american way of life” ?

Tem como não gostar de cinema? De filmes, do modo moderno de expressar a arte na tela? O cinema, essa expressão moderna, popular e digital da arte, fala muito mais a verdade do que a grande maioria das pessoas imagina. Isto é apenas uma opinião, claro, mas se observarmos com cuidado muitos filmes e seus temas, e traçarmos um paralelo entre especulações, mitos e grandes segredos da nossa humanidade, vamos encontrar muito mais do que só fumaça, muito mais do que apenas oportunismo de produtores em cima de temas da moda. Dizem que a vida imita a arte, e que a arte imita a vida. Pois o cinema é uma arte, que assim como imita a vida, nos revela, de forma delicada e sem responsabilidade, muito da nossa própria vida.

Assim é Beleza Americana. Uma impressionante obra dirigida por Sam Mendes em 1999, que revela de um modo claro e impactante, muitas das facetas de uma das sociedades mais importantes do nosso tempo. A família americana, o que há (ou pode haver) por trás daquela perfeição, felicidade e sucesso aparentes, seus hábitos, seus gritos de guerra, e sua imagem, para o mundo, e para dentro de casa. Liberdade, “american way of life“, moral e bons costumes, família e religiosidade. Essas são as bandeiras clássicas que qualquer político precisa ter em mãos e empunhadas bem alto, se quiserem pensar em se eleger nos Estados Unidos da America.

O centro de gravidade do filme está focado em duas famílias. A primeira, uma família típica moderna. Pai trabalhando em grande empresa, mãe se virando no seu trabalho, ansiosa pelo esperado sucesso e aparerências, rotina em campo, e uma filha adolescente rebelde a tira-colo. Padrão. A segunda família é regida por um militar, com suas influências e vícios da profissão. A trama ainda é temperada com a melhor amiga da adolescente e o chefe da mamãe de família. Estes são os principais personagens da deliciosa trama que flerta com a necessidade de parecer, e quem sabe até ser (ou não) uma família americana em dia com a sua sociedade. Ah, sim, podemos. Podemos extender tudo isso para muitos países. Quem sabe, até mesmo para o nosso, tropical e cheio de “jeitinhos brasileiros”, Brasil.

É evidente que, na maior potência bélica do mundo, uma importante parcela da população é ligada as forças armadas. Tão evidente quanto, é o fato de a carreira militar ter impacto, ou influência sobre a família dos militares. Então a obra aborda a maneira como o militar  Fitts opera com sua família. Sim, opera é exatamente a palavra. Sua esposa é totalmente submissa, quase alienada, quase catatônica. O filho, obrigado a fazer exame de urina (para detectar o uso de drogas) regularmente, se vira por fora. Vende drogas, e tem como passa-tempo o voyerismo “gravado”. A filmadora é sua melhor amiga, e seu quarto é um depósito de fitas e mais fitas sobre tudo e sobre todos.

Na casa ao lado, temos então a típica família americana. Papai e mamãe trabalhando, filhotinha estudando, expectativas, rotinas e desgastes. Na trama, Lester (Kevin Spacey) chega então, ao seu limite psicológico. Profundamente incomodado com sua vida, com sua rotina em casa, e com seu trabalho, ele se demite, mandando o mundo corporativo para o espaço e chantageando seu chefe para continuar recebendo por um bom tempo. Aliviado, ele busca a ausência total de responsabilidade, um indicativo ao excesso de pressão do mundo corporativo atual, se empregando em uma lanchonete, aquela, mundial, em um cargo muito aquém de suas habilidades e currículo. Em paralelo, Lester também se vê maravilhado e seduzido por uma provocante amiga de sua filha. Sensual, cheia de histórias, se dizendo experiente e mulher pronta, Angela é líder de torcida, a garota mais popular e descolada da escola e toda aquela pompa da adolescente top do colégio. Um dos pontos altos do filme sem dúvida passa pelos sonhos de Lester com Angela, sempre sensuais e cercados de rosas vermelhas, delirantes e com uma fantástica trilha sonora.

A esposa de Lester, Carolyn, não está menos desgastada por sua rotina. Corretora de imóveis, acaba se envolvendo com seu chefe, ao qual ela idolatra, pelo seu sucesso. Eles tem um caso, e acabam desmascarados quando frequentam a lanchonete onde Lester agora trabalha.

Filha do casal, a rebelde Jane assiste seu pai babar por sua amiga Angela (Mena Suvari), ao mesmo tempo que se envolve com Ricky, o esquisito vizinho que filma tudo o tempo todo. Ricky, filho do militar, também interage com Lester, sendo o fornecedor de maconha, o novo passa-tempo do pai de família surtado. Com uma mãe catatônica, e um pai que executa o regime militar dentro de casa, o jovem planeja sua fuga com Jane.

Lá no terreno dos pais de famílias, em um jogo de cenas hilário, o militar passa a desconfiar que seu filho Ricky é homossexual, e acaba confrontando Lester, envolvido pelas cenas na desconfiança. Aí vem uma surpresa nem tão surpreendente assim: O militar é que é homossexual, e é descoberto por Lester.

Enredo, formado, vamos aos ingredientes deste fantástico final de filme:

  • O papai de família Lester cansa do trabalho, se demite, chantageia seu chefe, e parte para um trabalho com ausência de responsabilidade;
  • Ainda em Lester, ele está apaixonado pela melhor amiga da filha;
  • A esposa de Lester, Carolyn, também sentiu a rotina, e teve um caso com seu chefe. Foram pegos em flagrante por Lester. Ela tem uma arma;
  • Jane, a filha rebelde do casal quer sair do mundo certinho, e se envolve com o vizinho esquisitão;
  • Angela, “team leader” a amiga sensual de Jane, topa o flerte do pai de Jane;
  • Fitts, o militar pressiona o filho, controla a esposa, e fica em situação constrangedora após tentar beijar Lester, em uma conversa confusa. Ele naturalmente tem várias armas;
  • O filho de Fitts, Ricky, que compra urina dos amigos caretas para os exames periódicos, e filme tudo ao seu redor, quer fugir com Jane. Ele não tem uma arma, só a filmadora.

Seguimos então, com o final da trama: Lester finalmente consegue a oportunidade de uma relação com Angela, que na hora H, revela que é virgem. Então Lester cai na real, fica atordoado dentro de casa, no momento em que sua esposa chega em casa, armada, após ter sua traição desmascarada pelo marido. No mesmo momento, o militar armado se encaminha para a casa de Lester, transtornado. Ouve-se um tiro. Lester cai, e as rosas vermelhas de seus sonhos se transformam em sangue, mostrando as vísceras de duas famílias aparentemente perfeitinhas, bem ao estilo sociedade americana de ser.

Uma tragicomédia, um filme excepcional, profundo, e que trata cuidadosamente e de forma magistral do seio da família americana, e porque não, de boa parte de nossa sociedade. Beleza Americana, um filme para ser visto inúmeras vezes, cada uma com uma possibilidade de leitura diferente, cada uma revelando um toque a mais da genial abordagem sobre a sociedade americana, aquela da liberdade, do “american way of life“.

Que Deus abençoe a America.

Beleza?

…olhe bem de perto.

A onda.

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Autocracia.

Palavra mãe dos regimes totalitários, autocracia literalmente significa governo por si próprio. Se traduz em um governo absoluto com poder ilimitado, e nem as monarquias chegam a esse estágio. Vamos reconhecer autocracia nos governos de Hitler e Stalin. Também Ivan, o terrível era um autocrata, inspirado no Império Bizantino.

Em uma aula sobre autocracia, o professor Wenger acaba criando uma discussão na turma sobre a possibilidade de o país (no caso a Alemanha) viver novamente uma situação como viveu com Hitler. Resolve então propor uma experiência de uma semana, duração do curso, onde a turma viveria no regime autocrático. Essa é a idéia do interessante filme A onda.

O filme é uma refilmagem de outra produção de mesmo nome de 1981, e uma adaptação do livro de Todd Strasser, baseado num acontecimento que ocorreu num colégio de Ensino Médio norte-americano em 1967. Na época, o professor de história William Ron Jones simulou um regime totalitário fascista, fundamentado em Força pela disciplina, força pela comunidade, força pela ação, força pelo orgulho. Assim como na nova leitura do cinema, os alunos acabaram levando a experiência a sério e um deles perdeu uma das mãos ao lidar com explosivos. Jones foi demitido, enquanto Wenger, no filme, enfrentará questões maiores…

Assim como aconteceu na Alemanha de Hitler (que vivia em crise econômica e em situação difícil após a derrota na 1° Guerra), os alunos foram envolvidos pela liderança focada em disciplina, na força do coletivo e orgulho. Alguns mais, outros menos. Vários alunos acabam obcecados pela “Onda”, e o fanatismo acaba traduzido em atos de vandalismo e repressão aos que não aderiram a turma. É claro que os alunos com algum problema em casa, mais desmotivados ou infelizes acabam se engajando com mais afinco no projeto, assumindo isso como objetivo de vida. O professor desmancha as pequenas turmas do grupo, une alunos mais fortes com mais fracos equilibrando e homogeneizando o grupo anulando o individualismo. A Onda criou adesivos, pichou seu logo pela cidade, criou home page, saudação, tudo criado pelos próprios alunos.

Tudo acontece apenas durante a semana do curso, é fica bastante evidente o poder que as palavras podem exercer sobre uma pessoa. Inclusive abrindo mão de suas opiniões pessoais para participar de forma efetiva do grupo. Para pertencer ao grupo e participar do poder que ele representa. O fato de o filme ter sido baseado no acontecimento de 1967 é mais um indicativo de que A Onda não é apenas um objeto de ficção. O ser humano está sim permanentemente vulnerável a esse modelo de alienação, é claro que não nessas proporções. Mas quem ainda não viu um amigo mudar totalmente de comportamento para se adequar a turminha da moda? A gravidade não é a mesma, porém princípio é sim a mesma coisa.

Logo os simpatizantes começaram a aparecer, a Onda promoveu festas e quem ficava contra o movimento ou simplesmente não participava era excluído. É claro que todos acabavam tendo alguma vantagem pela força do conjunto, e isso dava ainda mais força ao movimento. Então chegou o momento em que os excessos promovidos pelo grupo começaram a repercutir mais forte, e o professor se deu conta que o projeto já tinha ido longe demais. Convoca então uma reunião, onde mostra a todos… (não, não vou contar o final do filme, afinal de contas, a Artigolândia não é uma autocracia!).