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Era para ser uma belíssima viagem, o roteiro incluía cidades lotadas de história, de cultura, grandes e alguns exóticos centros da europa. E foi, uma belíssima viagem. Mas também foi mais que isso. Bem mais que isso, eu diria.

Eu tenho, assim como todo mundo tem, aquela amiga, que lê cartas. Lê e prevê uma série de coisas, de mudanças, enfim. Como eu estava trocando de empresa, fui lá e pedi: Mostra o jogo amiga! Como vai ser essa movimentação profissional? Coloca as cartas na mesa! E ela disse: Não esquenta com isso, que está tudo certo. Mas na vida pessoal, vejo avião, e vejo aliança. Sei. A previsão padrão, um avião vai entrar na sua vida, e serão felizes para sempre. Sei. Saí mesmo é tirando onda da amiga “carteira.” E fui viajar.

A Europa é fantástica, é o berço dos ancestrais de muitos de nós brasileiros, mesmo americanizados como nós somos. Amo a Europa. E a viagem transcorreu muito bem, foi longa, no final até cansativa, mas ótima, mesmo. A tal troca de empresa foi bem sucedida, a viagem terminou, e eu não tinha voltado noivo, nem com alianças, nem nada. Mas foi lá mesmo, que tudo começou. Eu nem sabia, e nem percebi, mas foi lá mesmo que minha vida começou a mudar. Resolveu crescer, evoluir, e se multiplicar. Foi no aeroporto de Madri, a primeira troca de olhares. No de Milão, a segunda. A personagem era quieta, quase muda. Mas a amiga dela não. Então voamos, até Porto Alegre de conversa, no banco da frente da personagem, tendo um ótimo papo, eu e a super querida amiga dela.

Já no Salgado Filho, fim da jornada, e uma foto, do trio. A personagem, a amiga, e eu. Meses passaram, conversas aconteceram, e quase um ano depois, a profecia começa a se realizar. De avião, a aliança não veio. Não naquele momento. Por que os anos passaram, a maturidade do relacionamento cresceu, e então, “ring, ring.”

Agora faltam menos de 15 dias. A contagem regressiva já deixou de ser mensal, está em dias, e quase se preparando para ser em horas. As vezes paro e penso, que queria ter nascido no futuro. Mas então me pego gostando das coisas que quase são consideradas… Do passado. Boa parte da minha turma realmente casou. Outra parte menor até multiplicou-se sem casar! Outra parte casou sem casar. Sabe o tal relacionamento estável? Tá na moda, eu sei. Mas nesse caso prefiro viver a moda antiga. Bem tradicional, mesmo. Nada de coisa de futuro. Prefiro coisa de passado. Noiva nervosa com o vestido, ansiosa com a entrega dos convites, noivo mais preocupado com a lua de mel e o ninho dos pássaros, enfim. Aquele ritual, todo. Eu eu gosto mesmo do ritual, aquele, todo.

Aí, faltando 10 dias, faço a conta. Ops, só tenho mais um final de semana antes de estar casado. Paro, penso, procuro a sensação. Aquela, que todos dizem, sabe, o tal frio na barriga, o pânico, o desespero de amarrar o bode definitivamente. Procuro, mas não acho. Fiquei velho? Ou será que só amadureci? Só posso concluir que sim, amadureci. Rompi a barreira da Idade de Cristo, e já faz um ano. Sempre foi a piada interna, minha comigo mesmo, que iria para o altar com 33. Quase foi. Ia ser. Mas o apartamento só ficaria pronto depois, então… Ih, saí falando e esqueci da sensação. Desculpa, fugi do assunto, eu sei. Mas é que… Sério, eu não achei! Nem medo, nem pânico, nem frio na barriga. Acho que eu mesmo posso dizer, porque todos meus amigos, e amigas, vão dizer: Quem te viu, quem te vê.

E o casamento vem aí, lá, lá, lá, lá, lá, lá!

Ah, e a amiga querida que é culpada de tudo? Claro, será madrinha!

Artigo escrito originalmente para o excelente site Sempre Noiva

Beleza Americana

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O filho é velho, mas a essência é a mesma. Vamos passear, por uma visão americana, do seu próprio “american way of life” ?

Tem como não gostar de cinema? De filmes, do modo moderno de expressar a arte na tela? O cinema, essa expressão moderna, popular e digital da arte, fala muito mais a verdade do que a grande maioria das pessoas imagina. Isto é apenas uma opinião, claro, mas se observarmos com cuidado muitos filmes e seus temas, e traçarmos um paralelo entre especulações, mitos e grandes segredos da nossa humanidade, vamos encontrar muito mais do que só fumaça, muito mais do que apenas oportunismo de produtores em cima de temas da moda. Dizem que a vida imita a arte, e que a arte imita a vida. Pois o cinema é uma arte, que assim como imita a vida, nos revela, de forma delicada e sem responsabilidade, muito da nossa própria vida.

Assim é Beleza Americana. Uma impressionante obra dirigida por Sam Mendes em 1999, que revela de um modo claro e impactante, muitas das facetas de uma das sociedades mais importantes do nosso tempo. A família americana, o que há (ou pode haver) por trás daquela perfeição, felicidade e sucesso aparentes, seus hábitos, seus gritos de guerra, e sua imagem, para o mundo, e para dentro de casa. Liberdade, “american way of life“, moral e bons costumes, família e religiosidade. Essas são as bandeiras clássicas que qualquer político precisa ter em mãos e empunhadas bem alto, se quiserem pensar em se eleger nos Estados Unidos da America.

O centro de gravidade do filme está focado em duas famílias. A primeira, uma família típica moderna. Pai trabalhando em grande empresa, mãe se virando no seu trabalho, ansiosa pelo esperado sucesso e aparerências, rotina em campo, e uma filha adolescente rebelde a tira-colo. Padrão. A segunda família é regida por um militar, com suas influências e vícios da profissão. A trama ainda é temperada com a melhor amiga da adolescente e o chefe da mamãe de família. Estes são os principais personagens da deliciosa trama que flerta com a necessidade de parecer, e quem sabe até ser (ou não) uma família americana em dia com a sua sociedade. Ah, sim, podemos. Podemos extender tudo isso para muitos países. Quem sabe, até mesmo para o nosso, tropical e cheio de “jeitinhos brasileiros”, Brasil.

É evidente que, na maior potência bélica do mundo, uma importante parcela da população é ligada as forças armadas. Tão evidente quanto, é o fato de a carreira militar ter impacto, ou influência sobre a família dos militares. Então a obra aborda a maneira como o militar  Fitts opera com sua família. Sim, opera é exatamente a palavra. Sua esposa é totalmente submissa, quase alienada, quase catatônica. O filho, obrigado a fazer exame de urina (para detectar o uso de drogas) regularmente, se vira por fora. Vende drogas, e tem como passa-tempo o voyerismo “gravado”. A filmadora é sua melhor amiga, e seu quarto é um depósito de fitas e mais fitas sobre tudo e sobre todos.

Na casa ao lado, temos então a típica família americana. Papai e mamãe trabalhando, filhotinha estudando, expectativas, rotinas e desgastes. Na trama, Lester (Kevin Spacey) chega então, ao seu limite psicológico. Profundamente incomodado com sua vida, com sua rotina em casa, e com seu trabalho, ele se demite, mandando o mundo corporativo para o espaço e chantageando seu chefe para continuar recebendo por um bom tempo. Aliviado, ele busca a ausência total de responsabilidade, um indicativo ao excesso de pressão do mundo corporativo atual, se empregando em uma lanchonete, aquela, mundial, em um cargo muito aquém de suas habilidades e currículo. Em paralelo, Lester também se vê maravilhado e seduzido por uma provocante amiga de sua filha. Sensual, cheia de histórias, se dizendo experiente e mulher pronta, Angela é líder de torcida, a garota mais popular e descolada da escola e toda aquela pompa da adolescente top do colégio. Um dos pontos altos do filme sem dúvida passa pelos sonhos de Lester com Angela, sempre sensuais e cercados de rosas vermelhas, delirantes e com uma fantástica trilha sonora.

A esposa de Lester, Carolyn, não está menos desgastada por sua rotina. Corretora de imóveis, acaba se envolvendo com seu chefe, ao qual ela idolatra, pelo seu sucesso. Eles tem um caso, e acabam desmascarados quando frequentam a lanchonete onde Lester agora trabalha.

Filha do casal, a rebelde Jane assiste seu pai babar por sua amiga Angela (Mena Suvari), ao mesmo tempo que se envolve com Ricky, o esquisito vizinho que filma tudo o tempo todo. Ricky, filho do militar, também interage com Lester, sendo o fornecedor de maconha, o novo passa-tempo do pai de família surtado. Com uma mãe catatônica, e um pai que executa o regime militar dentro de casa, o jovem planeja sua fuga com Jane.

Lá no terreno dos pais de famílias, em um jogo de cenas hilário, o militar passa a desconfiar que seu filho Ricky é homossexual, e acaba confrontando Lester, envolvido pelas cenas na desconfiança. Aí vem uma surpresa nem tão surpreendente assim: O militar é que é homossexual, e é descoberto por Lester.

Enredo, formado, vamos aos ingredientes deste fantástico final de filme:

  • O papai de família Lester cansa do trabalho, se demite, chantageia seu chefe, e parte para um trabalho com ausência de responsabilidade;
  • Ainda em Lester, ele está apaixonado pela melhor amiga da filha;
  • A esposa de Lester, Carolyn, também sentiu a rotina, e teve um caso com seu chefe. Foram pegos em flagrante por Lester. Ela tem uma arma;
  • Jane, a filha rebelde do casal quer sair do mundo certinho, e se envolve com o vizinho esquisitão;
  • Angela, “team leader” a amiga sensual de Jane, topa o flerte do pai de Jane;
  • Fitts, o militar pressiona o filho, controla a esposa, e fica em situação constrangedora após tentar beijar Lester, em uma conversa confusa. Ele naturalmente tem várias armas;
  • O filho de Fitts, Ricky, que compra urina dos amigos caretas para os exames periódicos, e filme tudo ao seu redor, quer fugir com Jane. Ele não tem uma arma, só a filmadora.

Seguimos então, com o final da trama: Lester finalmente consegue a oportunidade de uma relação com Angela, que na hora H, revela que é virgem. Então Lester cai na real, fica atordoado dentro de casa, no momento em que sua esposa chega em casa, armada, após ter sua traição desmascarada pelo marido. No mesmo momento, o militar armado se encaminha para a casa de Lester, transtornado. Ouve-se um tiro. Lester cai, e as rosas vermelhas de seus sonhos se transformam em sangue, mostrando as vísceras de duas famílias aparentemente perfeitinhas, bem ao estilo sociedade americana de ser.

Uma tragicomédia, um filme excepcional, profundo, e que trata cuidadosamente e de forma magistral do seio da família americana, e porque não, de boa parte de nossa sociedade. Beleza Americana, um filme para ser visto inúmeras vezes, cada uma com uma possibilidade de leitura diferente, cada uma revelando um toque a mais da genial abordagem sobre a sociedade americana, aquela da liberdade, do “american way of life“.

Que Deus abençoe a America.

Beleza?

…olhe bem de perto.