Sempre que é anunciada uma obra literária invadindo a telinha da recreação popular, fico na expectativa. Porque somos um país rico culturalmente, e tão grande e diverso que metade das regiões não tem sequer ideia de como é a cultura das outras regiões. E temos assistido a verdadeiras obras de arte traduzidas na nossa telinha, algumas primorosas, outras muito boas, algumas não tão boas, mas a maioria tem tido sucesso na empreitada. Porque vamos combinar que a Vênus Platinada sabe fazer muito bem esse negócio aí, de novelas e tal. Muito bem, mesmo. Sim, com aquele monte de críticas e inutilidades, óbvio. Mas deve-se admitir, o fazem dentro da proposta, e o fazem com a máxima propriedade.

Basta olhar para os seriados que tem surgido, chamados de minisséries no início, e recentemente tomando o formato mundial de seriado. Excelentes peças estão sendo produzidas, primorosas comédias que não perdem mais para a maioria dos grandes seriados mundiais. As de mais sucesso são as comédias, mas os dramas estão chegando, se preparando, se ensaiando, e as novelas são a base de tudo isso. A Platinada sabe fazer, sabe produzir, e logo teremos condições de escolher entre uma vasta coleção de seriados nacionais, o que veremos na hora da telinha.

Mas voltando a questão da abordagem de obras de arte na telinha. As novelas da Platinada são tão fortes, que agora já tem um horário novo, o das 11. Começou bem com o mágico, terminou tragicamente voando rumo a vergonha em forma de pomba. O ritmo das 11 é mais acelerado, o enredo as vezes perde a riqueza, mas aguenta a proposta. Aí vem Gabriela, um clássico sempre aguardado com muita expectativa, justamente no acelerado horário das 11. E começou bem, provocou bem, se instalou bem.

Os núcleos são interessantes, o cenário épico sempre traz um toque de classe especial, e a história do coronelismo conta a nossa própria história. Personagens interessantíssimos se apresentam, se movem, se mostram e seus segredos os perseguem. Gabriela no geral vem bem. A única que não vem bem, é justamente, a própria Gabriela. O tempero do cravo e da canela não deram seus ares. A sedução virou ciranda cirandinha, a provocação se perdeu no caminho do circo, e a magia da personagem mágica de Jorge Amado parece ter sido levada pela pipa do telhado. Seria uma crueldade culpar uma atriz pelas falhas da arte traduzida em tela platinada, mas que a personagem principal não trouxe sua alma, não trouxe.

O núcleo que menos chama a atenção, o mais chato e sem graça, é justamente o que deveria ser o principal. Sorte que temos os coronéis e seus mandos e desmandos, as divertidas teúdas e manteúdas, as papa-hóstias fofoqueiras e as patrulheiras dos bons costumes que certamente escondem um passado negro. "Deite que quero lhe usar" vai ficar na memória por muito tempo, a rebeldia das pequenas Gerusa e Malvina também. A figuraça do Tonico, os cornos de plantão, e seus jagunços, e claro, a vida difícil das quengas no glamoroso Bataclã! A que deveria ser uma rebelde e sedutora Gabriela não passou de uma menina infantil, contrariada por não poder mais se criança, que simplesmente compilou uma chorosa meninona que não sabe usar salto. Se o tempero do prato principal não colou, o enredo com um todo funcionou. Nesta Gabriela, até a falecida Sinhazinha foi mais Gabriela que Gabriela.

Imagens: Rede Globo de Televisão.