Já fazia algum tempo, na verdade muito, que o pessoal que curte seriado me indicava Dexter, com bastante frequência e intensidade. Por um motivo ou outro, eu vinha negligenciando essa indicação e adiando minha jornada pelo mundo vermelho de Dexter, até poucos dias atrás. Mas eu comecei. Assisti e caí na armadilha desse seriado que consegue colocar de um forma leve a vida de um serial killer com um número bastante significativo de "feitos".

Dexter é um seriado denso, complexo, e com uma receita de muito sucesso para dosar o peso de um serial killer que faz picadinho de suas vítimas sem parecer (e ser) um seriado "forte". É absolutamente surpreendente como Dexter com todo seu peso consegue ser tão leve. A primeira vez que ouvi falar, ou que li a respeito, imaginei um seriado forte, daqueles que requerem um tempo para a "digestão mental" do episódio, e é exatamente aí que reside a agradável surpresa de dexter.

Na verdade, agradável é exatamente a palavra que descreve o serial killer Dexter, um complexo jovem que se julga vazio e sem sentimentos. Se julga. Filho adotivo de um investigador da homicídios, Dexter é reconhecido em sua essência por seu novo pai Harry, e treinado para não ser pego. É direcionado, é um serial que usa sua necessidade de matar como um supervisor da justiça. Onde ela não alcança, ele entra. Um justiceiro requintado, técnico, frio. O pai, falecido, é chamado sempre na memória de Dexter, que trabalha como especialista em cenas do crime onde o sangue da vítima pode levar à suspeitas e resoluções de casos. No mesmo departamento trabalha Deb, sua irmã adotiva, uma esperta e insegura jovem inibida pelo talento do irmão e a ligação de Dexter com o pai. Na verdade, essa ligação era o próprio treinamento de Dexter. Treinamento em sobrevivência, uma aula de como ser um serial killer sem acabar na cadeira elétrica, onde a regra número era não ser capturado.

A vida na homicídios é bem agitada, e alguns personagens como Angel (esq.) denotam um certo tom de descontração e "passion" para os episódios, assim como Masuka (abaixo). Os personagens principais do departamento são também ricos, com histórias de vida interessantes, e os que não tem uma história interessante, levam as pitadas de humor ao dia-a-dia do seriado. Dexter é uma bela surpresa para quem procura medidas certas de algo mais, um prato extremamente bem temperado e atrativo já no primeiro episódio, mesmo que só comece a mostrar a complexidade de sua história mais adiante, no final da primeira temporada.


E a primeira temporada traz uma interessante e surpreendente (mesmo) competição entre killers. Dexter enfrenta e investiga um outro serial, ao qual ao mesmo tempo que admira quer eliminar. Um dos melhores elementos é que Dexter acaba virando a referência do serial, toda a comunicação é direcionada e feita especialmente para o nosso anti-herói. Durante toda a trama as histórias individuais são contadas na dose certa, enquanto vamos conhecendo os pensamentos e modos de Dexter viver sempre com a ajuda do "código de Harry", o conjunto de regras que seu pai adotivo criou para manter Dexter longe da cadeira elétrica e escolhendo apenas vítimas que mereçam ser executadas.

E sim, seriais killers também amam. Ou quase. Ou amam de verdade? A primeira temporada flerta também com a questão da capacidade de um assassino frio e sem remorso amar e se ligar às pessoas. Mas é ainda um flerte leve, de longe, sem a profundidade que a segunda temporada acaba revelando... A primeira temporada termina de forma surpreendente, usando a própria história do nosso anti-herói, em um ritmo quase frenético, em overdoses de surpresas que mesmo em excesso não pecam. É uma história sólida e bem construída, muito diferente do ambiente que transformou o garoto Dexter em um artista da morte. A primeira temporada trata principalmente disso, como Dexter foi construído. Ou desconstruído?


Na segunda temporada o flerte com os sentimentos de Dexter são postos todos a prova, e toda a trama brinca com seu futuro de forma mais efetiva, trazendo novos elementos e mostrando a obra que antes ficava apenas na sombra do oceano. Agora sim são testadas outras capacidades de Dexter, como o de compreender tudo o que foi responsável pelo que ele é, e o que ele pode fazer a respeito disso. Os sentimentos são provocados até chegarmos a conclusão que um assassino frio e calculista também ama. Ou não? A abordagem da segunda temporada é mais profunda que a aventura da caçada de gato e rato da primeira, mas de muita ação e reviravoltas. E assim como na primeira, outros perigosos personagens podem tentar fazer concorrência com nosso anti-herói denso, complexo e silencioso. Dexter experimenta fases e sensações diferentes, toma decisões inéditas, vai e volta, e deixa a temporada cheia de expectativas e sustos. E dizem que as próximas temporadas são ainda melhores...

Entre sem muito barulho, e bem vindo ao mundo reflexivo de Dexter...