Vitória. Não da guerra. Mas de uma importante batalha.

Esse foi um final de semana histórico no Rio de Janeiro. Hoje foi um marco, na história moderna do Rio. E o fator mais importante talvez nem tenha sido a ocupação do Complexo do Alemão em si, pelo menos não esse fator sozinho. A tomada do território dos traficantes, tido como o "coração do mal" na cidade, sem dúvida foi importantíssimo. Mas de igual importância também foi a virada que aconteceu no comportamento da população carioca. O apoio, a vontade com que a população aplaudiu, colaborou, a forma como a população do Rio comprou essa batalha.

O apoio da população na invasão e retomada dos territórios ocupados pelos traficantes ficou registrada, entre outros fatos, no disque denúncia, que nunca teve volume de ligações similares. E não só isso. A riqueza de detalhes fornecidas nas denúncias, o envolvimento do denunciante, e a preocupação com o desfecho do fato tornam a virada protagonizada pela força de segurança um fator preponderante na guerra contra o tráfico de drogas no Rio. Guerra contra o tráfico? Ou guerra contra as drogas? Essa é outra discussão. O que importa é que os cariocas querem seu território de volta, e agora, começam a tê-lo. O povo apoiou porque acreditou no poderio bélico apresentado, porque se sentiu seguro. Apoiou porque queria uma demonstração de força, porque queria acreditar que o Brasil é mais forte que os traficantes do Rio. Porque não aconteceu antes? Quem sabe. E quem sabe não fala. Mas aconteceu agora, e a população viu os traficantes fugir correndo, de chinelo e sem camisa, com tanques na sua cola.

A população apoiou, acreditou. E acreditou porque percebeu que desta vez era para valer. Desta vez, o governo não pediu licença para entrar na comunidade, não negociou muito. Né? Mandou a bandidagem sair, e depois, foi entrando, com tudo que tem direito. Com forças de Marinha, Exército, Aeronáutica, polícia federal, civil, militar e do temido BOPE, o Brasil recuperou um território tomado há anos pelo poder paralelo do tráfico, um aberração na mais bela e mais turística cidade brasileira. Foram 2.700 homens, 37 blindados, 9 helicópteros, e uma invasão tranquila, bem longe do que se poderia imaginar. Se teve algum acordo, conselho, mediação no meio disso tudo? Bom, a lógica diz que ninguém seria maluco de encarar tal poderia bélico morro acima. Mas quem sabe? E importa? Quase que não. O território está recuperado. Desta vez, ao contrário do que ONGs, e filósofos pseudo-intelectuais bunda branca gostariam, os tanques foram usados ao invés das rosas. E funcionou.

Mas essa é só uma das etapas, importante, mas inicial. Essencial, mas inicial. Tomar o território é o básico, mas implica em outras questões. Sabidamente, onde as UPPs já funcionam, as drogas continuam circulando, o que mudou foi o tráfico. Por isso a pergunta lá de cima: A guerra é contra as drogas, ou contra o tráfico como ele é? Bem, o problema maior, agora, é o tráfico como ele é. Então, vamos falar do tráfico como ele é. Depois de retomados os territórios (do Complexo, ainda faltam os outros...), agora é a hora de garantir que eles permaneçam fora do domínio do poder paralelo. Falando em paralelo, faço um paralelo dessa ocupação com a guerra do Iraque. Os EUA entraram com tudo, tomaram o território iraquiano. Mas a resistência continuava. Nas casas, nos becos, no escuro. Um tiro perdido, um soldado no chão. Essa segunda parte é mais dolorosa, é de paciência, como já adiantou um dos comandantes da operação. O território já está ganho, agora é preciso limpar os buracos do território.

Depois de ganho o território, é preciso encontrar os bandidos que não apareceram ainda, é preciso encontrar seus armamentos, é preciso apreender e prender. Aí é preciso que o judiciário não estrague o trabalho da polícia, como normalmente acaba fazendo. Lembram da principal prisão dessa operação? Toda a força de um país, e a principal prisão foi um bandido que estava preso, e foi solto, um assassino, torturador, que foi colocado em semi-aberto. Por quem? Quem foi o responsável por colocar de volta às ruas uma bandido como Zeu? Ninguém deu um nome, na imensa cobertura da imprensa. Quem foi o juiz que liberou? Quem foi o político que apresentou o projeto de lei que permitiu tal aberração? Quem assinou? Porque ninguém fornece essas informações? De nada adianta prender, se o presos não ficam onde devem. E se ficam, comandam tudo de dentro da prisão.

Sem dúvida que a operação foi importante. Foi mais que isso. Foi surpreendente, foi quase inacreditável, frente ao que temos visto nos últimos anos nos noticiários sobre o tráfico no Rio. Mas não pode parar em tomada de território. O caminho é longo, tortuoso, e o pior: Político e jurídico. Se nossas leis continuarem as mesmas, não há BOPE que dê jeito. Se a política não for mais cobrada, não há BOPE que dê jeito. Ou alguém tem dúvida que "Tropa de Elite 2", o filme, tem mais verdade do que ficção? Ou só verdade. A primeira batalha está vencida, o primeiro e grande passo foi dado. Agora, enquanto os homens de preto, faca na caveira, continuam o heroico (sim, heroico) trabalho deles, cabe a todos nós, pressionar o congresso, pressionar os políticos, pressionar as leis bunda moles, porque do contrário, logo a piscina da foto estará cheia de novo. De cocaína e maconha.

Caveira.