Ou o caneco?

Estamos na véspera. Chegou a hora. O bola está rolando... Pra cima do Brasil. Quem pensou, como eu, que a Copa seria um ganho, errou. Foi amassado, pela bola. E pelo tatu, bola. A bola da incompetência. Não dá pra se enganar. Pra fechar os olhos. É certo, e estamos acostumados com as nossas lambanças do dia a dia. Quase nada funciona direito no Brasil. Quase nada. Não temos leis, não temos justiça que funcione, não temos saúde, não temos infraestrutura de nada, temos milhões de rios e terra para ferrovias, e andamos de caminhão pra cima das pessoas num dos trânsitos mais violentos do mundo, nossa economia é frágil, pagamos um absurdo por um carro que lá fora é popular, só conhecemos a Apple porque ela inventou coisas baratinhas (que chegam aqui caras), nossos políticos, aos invés de trabalharem pra nós, acham que somos escravos deles... Enfim. O Brasil é uma piada em todos os sentidos possíveis. Mas era só uma Copa. Alguns milhões de turistas, meia dúzia de estádios e seu entorno. Claro que ia ter a vergonha de ninguém falar inglês, de os turistas serem explorados até o último cent, que os caras não iam conseguir fazer um pedido num restaurante sem contar com algum estudante por perto pra ajudar, que iam sofrer nos táxis, que iam procurar metrôs que não existem, e iam ser roubados nos ônibus. Iam descobrir que o Brasil não evoluiu droga nenhuma, que é tudo uma melhora do terrível para o muito ruim. E só. Isso, já sabíamos. Mas pelo menos o básico, deveria estar aí.

Mas não está. Nada foi feito. Não houve ganho nenhum pras cidades. Não houve legado, não houve benefício. A Copa irá embora, e só nos restará a vergonha. Tenho muitos amigos e conhecidos fora. Digo a todos eles: Não, não aconselhem as pessoas a virem para a Copa. Vocês querem conhecer o Brasil, me avisem, e programamos. Mas não se aventurem nessa terra de ninguém. Aqui, nada está preparado pra receber visita. Estamos mal em absolutamente tudo. Ninguém se acerta. Não sabemos fazer. Não conseguimos. A Copa chegou, e a verdade vai aparecer. Somos incompetentes. Institucionalmente, incompetentes. Bom. Mas não tem nada de novo aqui. Tudo isso já sabíamos. Só podíamos ter pego a carona do momento econômico e do bônus demográfico que faz com que seja impossível o Brasil ficar pior, não importa quão fraca é a máquina pública (e é muito fraca, não só agora, sempre foi. Sempre, desde que os índios receberam os primeiros espelhos dos larápios portugueses), e ter feito algumas coisas para enganar a vergonha. Minimizar a vergonha. Criar um corredor de glória pra turista, em um país de vergonha. Meio como Cuba. Que é uma pra turista, e outra pro povo, que foge do país sempre que pode. Mas qual seria o melhor? O corredor pra turista, ou a verdade nua e crua. Ainda fico com o corredor. Porque o vexame já passamos todos os dias mesmo. Que ficasse nas internas.

Ah sim. O gigante acordou. Essa festa, que foi genuína por um momento, e provavelmente não será genuína durante a Copa (com sorte, até pode ser que seja...), vai voltar. Os convidados serão provavelmente outros. E assim como no final dos protestos que pararam o país, grupos de mierda vão se infiltrar, e se apossar do movimento, e fazer bagunça e gritar palavras de ordem que são só de meia dúzia e não do Brasil. Tudo isso vai acontecer na Copa. O quanto ruim vai ser? Bastante ruim. Não esperem nada mais ou menos. Será bem ruim. E talvez, perigoso.