Autocracia.

Palavra mãe dos regimes totalitários, autocracia literalmente significa governo por si próprio. Se traduz em um governo absoluto com poder ilimitado, e nem as monarquias chegam a esse estágio. Vamos reconhecer autocracia nos governos de Hitler e Stalin. Também Ivan, o terrível era um autocrata, inspirado no Império Bizantino.

Em uma aula sobre autocracia, o professor Wenger acaba criando uma discussão na turma sobre a possibilidade de o país (no caso a Alemanha) viver novamente uma situação como viveu com Hitler. Resolve então propor uma experiência de uma semana, duração do curso, onde a turma viveria no regime autocrático. Essa é a idéia do interessante filme A onda.

O filme é uma refilmagem de outra produção de mesmo nome de 1981, e uma adaptação do livro de Todd Strasser, baseado num acontecimento que ocorreu num colégio de Ensino Médio norte-americano em 1967. Na época, o professor de história William Ron Jones simulou um regime totalitário fascista, fundamentado em Força pela disciplina, força pela comunidade, força pela ação, força pelo orgulho. Assim como na nova leitura do cinema, os alunos acabaram levando a experiência a sério e um deles perdeu uma das mãos ao lidar com explosivos. Jones foi demitido, enquanto Wenger, no filme, enfrentará questões maiores...

Assim como aconteceu na Alemanha de Hitler (que vivia em crise econômica e em situação difícil após a derrota na 1° Guerra), os alunos foram envolvidos pela liderança focada em disciplina, na força do coletivo e orgulho. Alguns mais, outros menos. Vários alunos acabam obcecados pela "Onda", e o fanatismo acaba traduzido em atos de vandalismo e repressão aos que não aderiram a turma. É claro que os alunos com algum problema em casa, mais desmotivados ou infelizes acabam se engajando com mais afinco no projeto, assumindo isso como objetivo de vida. O professor desmancha as pequenas turmas do grupo, une alunos mais fortes com mais fracos equilibrando e homogeneizando o grupo anulando o individualismo. A Onda criou adesivos, pichou seu logo pela cidade, criou home page, saudação, tudo criado pelos próprios alunos.

Tudo acontece apenas durante a semana do curso, é fica bastante evidente o poder que as palavras podem exercer sobre uma pessoa. Inclusive abrindo mão de suas opiniões pessoais para participar de forma efetiva do grupo. Para pertencer ao grupo e participar do poder que ele representa. O fato de o filme ter sido baseado no acontecimento de 1967 é mais um indicativo de que A Onda não é apenas um objeto de ficção. O ser humano está sim permanentemente vulnerável a esse modelo de alienação, é claro que não nessas proporções. Mas quem ainda não viu um amigo mudar totalmente de comportamento para se adequar a turminha da moda? A gravidade não é a mesma, porém princípio é sim a mesma coisa.

Logo os simpatizantes começaram a aparecer, a Onda promoveu festas e quem ficava contra o movimento ou simplesmente não participava era excluído. É claro que todos acabavam tendo alguma vantagem pela força do conjunto, e isso dava ainda mais força ao movimento. Então chegou o momento em que os excessos promovidos pelo grupo começaram a repercutir mais forte, e o professor se deu conta que o projeto já tinha ido longe demais. Convoca então uma reunião, onde mostra a todos... (não, não vou contar o final do filme, afinal de contas, a Artigolândia não é uma autocracia!).