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Mitológico. É assim que defino a experiência vivida no show do Príncipe das Trevas com seu Black Sabbath, neste outubro de 13. Já tinha assistido Ozzy, tempos atrás. Mas o Black tem toda uma carga extra. Uma carga de quem nasceu em 68, no Reino Unido, ajudou a inventar o heavy metal, e influenciou gerações inteiras ao longo das décadas com seu som pesado e cheio de personalidade. Foi do Black meu primeiro vinil, presente de aniversário de um amigo que achava que eu era mais louco do que realmente era, em um ano que não lembro mais: Sabbath Bloody Sabbath.

Uma Pitada de História.

O nome da banda surgiu da paixão do baixista Butler por magia negra e terror. O nome foi inspirado no filme de mesmo nome. Aí teve início todo um conjunto de lendas e mitos que envolveu o Sabbath. Mas foi com o disco Paranoid que o Sabbath ganhou o mundo, já carregando todas as questões que sempre ligaram a banda ao “lado negro da força”.Em 77 Ozzy deixou o Sabbath, jogado ao LSD e outros brinquedos químicos. Aí foram anos com muitos vocalistas, sob o comando de Iommi, o lendário guitarrista da banda. O retorno do Príncipe das Trevas para a banda que fundou, e que o tornou uma lenda, ocorreu somente em 2011. Para a turnê de 2013, do álbum “13″, a banda trouxe os originais Ozzy, Iommi, e Butler. O baterista Ward ficou de fora, sendo substituído por Tommy Clufetos, baterista da banda solo de Ozzy, e responsável por um impressionante solo no show.

O Show.

O Sabbath em sua formação quase original é mais um dos grandes presentes do Brasil atual, em que os melhores do mundo vem tocar aqui. E no quintal de casa, é ainda mais fácil. O show foi no estacionamento da Fiergs, com um palco grandinho mas sem nenhum efeito especial. Sem frescura, os vovôs do heavy metal vieram mesmo só pra tocar. Sem fogo, sem morcegos, sem pirotecnia. Só guitarra, baixo, bateria e a voz e olhos estanhados do Príncipe das Trevas.

Trinta mil pessoas testemunharam o show, que começou 18 minutos antes do previsto, após uma apresentação até boa do Megadeth. Um interado e bem humorado Ozzy já flertava com o público antes mesmo de entrar no palco, mostrando que as sequelas do abuso da química praticamente a vida toda abalou o físico, mas não seu poder de palco. E nem sua preciosa voz. War Pigs abriu a festa, entre incrédulos e emocionados fãs. Alguns pareciam nem acreditar que a lenda estava ali, ao vivo e a cores bem na sua frente.

A qualidade do som premiava a perícia da banda, com a guitarra tecnicamente perfeita de Iommi, o poderoso baixo de Butler, e a impressionante performance de Clufetos na bateria do Sabbath. Foi um primor técnico a totalidade da banda. Com apenas três musicas novas, que não enlouqueceram o público, mas também não comprometeram, o Sabbath empilhou clássicos como se estivessem tocando no show de suas turnês originais. Um set list bem escolhido era o ingrediente final para um show inesquecível de uma das bandas mais lendárias da história da música.

Sem entrar nos méritos técnicos, de uma apresentação quase perfeita da banda, Ozzy sempre é um show a parte. Seu poder sobre o público é incrível. Mesmo se movimentando pouco, e quando corria parecia um vovô corcunda cuidando para não escorregar, o domínio de público do eterno vocalista do Sabbath é fenomenal. Cada expressão, cada sorriso, cada  olhar fantasmagórico provocava reações

A sirene de War Pigs avisou que o grande show estava começando, na sequência Into the Void fez cair a ficha para a multidão, de quem estava tocando para os 30 mil fãs de várias gerações que tiveram a sorte de estar presentes. Com brincadeiras, provocações e largos sorrisos de Ozzy, a terceira música foi Under the Sun, seguindo com Snowblind. O repertório seguiu até Rat Salad, que terminou com um impressionante solo de bateria de Clufetos. Daqueles de fazer o lendário baterista do Rush prestar atenção. Um solo interminável e magnífico.

Iron Man, uma das mais aclamadas veio na sequência, e depois de algumas novas, já no bis, Paranoid levou o público ao êxtase para terminar a mitológica apresentação do Black Sabbath em sua formação quase original. Foi um show daqueles imperdíveis, que já valia a pena mesmo que Ozzy já não tivesse vez, mesmo que a técnica da banda já não fosse a mesma. Pelo seu significado, pela sua história, pelas lendas, e pelo seu legado na música. Mas foi muito mais que isso. Foi uma aula de heavy metal, irretocável e milagrosa. Ainda mais se levarmos em conta todas as “artes químicas” que a banda viveu ao longo da sua existência. Um presentaço para qualquer um que goste de música, um show monstruoso do tamanho dos monstros construíram o Black Sabbath!

O Set List (Porto Alegre, Outubro/13):

1. “War Pigs”
2.  “Into the Void”
3.  “Under the Sun/ Every Day Comes and Goes”
4.  “Snowblind”
5.  “Age of Reason”
6.  “Black Sabbath”
7.  “Behind the Wall of Sleep”
8.  “N.I.B.”
9.  “End of the Beginning”
10. “Fairies Wear Boots”
11. “Rat Salad”
12. “Iron Man”
13. “God Is Dead?”
14. “Dirty Women”
15. “Children of the Grave”

BIS

16. “Paranoid”


Uma experiência.

Nada diferente disso é capaz de descrever The Wall, um dos maiores eventos já apresentados em nosso tempo. Roger Waters simplesmente trouxe de volta um dos grandes mitos da cena musical que conhecemos. A parede está de volta. Maior. Mais trabalhada. Com mais magia. Mas com a mesma essência que a tornou uma referência em espetáculos musicais.

Nada de show, nada de música, nada de efeitos especiais fantásticos. The Wall é a marca de um tempo, de uma era. Viver a experiência The Wall, é estar marcado por esse tempo. É viver esse tempo, de novo. Sempre disse, sobre a longa lista de shows vistos, que ela nunca seria completa sem Pink Floyd gravado nela. Por mais extensa que fosse, e é, sem Pink Floyd, ela não poderia ser finalizada. E até mesmo Roger Waters já estava nessa lista. Hoje, Pink Floyd ainda não está na lista. Mas a experiência, já foi vivida.

Porque The Wall inaugurou uma era no Pink Floyd, assim como o fez para todo o reino da música do nosso tempo. The Wall quebrou a marteladas o muro. The Wall quebrou, mas também construiu o seu próprio muro. Divisório. O marco. O lendário show. O mito. A grande parede onde martelos bailam em um reino psicodélico, marchando sobre porcos protestantes voadores, criaturas bisonhas e seriais, e aviões kamikazes. The Wall separou o universo dos shows, em antes, e depois da grande parede.

The Wall é tão grandioso, tão impressionante, que poderia até mesmo, não ter sentido algum. Mas tem. E tem muito mais do que muitos. Tem tudo e mais um pouco, como bem poucos. Seus gigantescos monstrengos, seus vermelhos martelos, seus milhares de tijolos gigantes que vem e vão, o porco voador, e todos seus elementos, e cada um de seus elementos, são densos. São complexos. São carregados de histórias, de mensagens, de protestos, de ações e revoluções.

The Wall é simplesmente uma obra de arte, que precisa ser lida, entendida, sentida, ouvida e percebida em toda a sua grandiosidade. E agora nem estamos falando de efeitos, de luzes, ou da mágica música de Roger Waters. Estamos falando da sua história, da sua missão, de toda a sua obra. De arte. The Wall.

Pink Floyd sempre foi, e continua sendo, uma meta. Um sonho musical. Já The Wall, era um mito do passado. Um feito vivido por felizardos seres de um antigo momento. Ter a oportunidade hoje, de reviver essa experiência, e com todos os avanços que a tecnologia atual permite, foi um presente inacreditável dos deuses da música. Em tempos que os dinossauros da música estão cada vez mais presentes no nosso quintal, em tempos em que as viagens exclusivas para shows vão ficando em um passado distante, The Wall se soma ao milagre musical McCarney, como um dos eventos inimagináveis que os amantes da música do nosso tempo tiveram a oportunidade de viver.

The Wall constrói e destrói. Abala, seduz, hipnotiza, The Wall não só faz o tempo parar, o faz dobrar, quebrar e retornar. Tijolo por tijolo. Falar do show? Do set list?  Dos melhores efeitos? Do porco, do avião, do muro? Dos momentos mais impressionantes? Narrar a emoção da música preferida, do efeito mais arrasador? Esquece. Não se aplica. Não com The Wall.

O Tiranossauro Rex dos grandes shows renasceu e marchou sobre o mundo da música com seu inesquecível martelo em punho, carregando consigo suas crianças e amassando os impiedosos professores. The Wall é o evento. The Wall é a experiência. Não há como narrar, não há como descrever. The Wall é The Wall. O mito. A lenda. The Wall não é para ser visto, muito menos para ser contado. The Wall é para ser vivido. A experiência.

Pra quem não foi, segura aí, uma amostrinha da experiência: