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Mágico. Sem dúvida alguma, a Ilha de Páscoa é um lugar mágico. A vulcânica casa dos lendários Moais guarda para si um território pequeno mas cheio de história, e desvendar sua pequena ilha é uma das viagens mais impagáveis que temos em nosso planeta. Bora embarcar nesse pequeníssimo pedaço de terra vulcânica cheio de lendas, mistérios e mitologias? Vem pra Páscoa!

Logo que começamos o planejamento da Lua de Mel na Polinésia, a Ilha de Páscoa, aquele pequeníssimo pontinho no mapa começou a crescer na minha imaginação. Os Moais, pensava. Claro que Páscoa nada tem a ver com Lua de Mel, porque é simples, é rústica, e não é lá uma história romântica, e nem mesmo muito feliz. Nada feliz, na verdade. É uma pequena ilha isolada que se destruiu sozinha. Mas o fato é que, tanto na ida como na volta, o roteiro para a Polinésia tinha paradas na ilha. E daquelas que a gente desce do avião, faz check in e check out. Já imaginou? Pisar em Páscoa duas vezes, e não sair do aeroporto? Não ver os Moais? Demais pra mim. Convenci a noiva, e empacotei Páscoa em uma parada de dois dias na volta da Lua de Mel. E já adianto: Faltou um dia! Páscoa é minúscula. Mas pra sentir o clima mesmo, fique por lá três noites, pelo menos!

Foi ainda na ida, quando pisei a primeira vez na Ilha de Páscoa, que vislumbrei um momento mágico. Provavelmente impressionado pela expectativa, o mito, por tudo que sempre lemos e ouvimos sobre as tribos Rapa Nui, seus incríveis Moais e sua história barbaramente trágica. A primeira brisa foi diferente, sim. Os primeiros passos foram de encantamento, sim. Mas aí veio o carimbo no passaporte, e o embarque de volta rumo à Polinésia. A primeira impressão, foi mesmo só a primeira impressão. Mágica, em um aeroporto diferente, com um clima diferente, mas era hora de seguir viagem. Páscoa mesmo, só na volta.

Alguns dias depois, no retorno da Polinésia…

A chegada foi atribulada, cansativa. Porque o fuso que rodou a favor na ida para a Polinésia, cobrou a conta na chegada em Páscoa. Saímos as 11 da noite de Papeete, mas o vôo acelera o relógio, e chegamos em Páscoa ao meio dia com apenas 3 ou 4 horas de sono. A organizada agência Kia Koe contratada pela STB, e que cuidou do nosso pacote por lá nos recolheu já avisando: “O primeiro passeio de vocês é logo mais, as 13 horas.” E era passeio privativo, não daria nem pra dormir no bus. Jogamos as malas no hotel Taha Tai, um casarão bem simples mas simpático, com pouca estrutura revelando uma estrondosa mas esperada diferença dos resorts de Bora Bora, e fomos almoçar. Em Páscoa tudo é perto, a maior distância da ilha de ponta a ponta tem 22 km. A outra dimensão, tem 11 Km. A festa dos numerólogos. Achamos um restaurante super típico em minutos, o Haka Honu, e foi uma super pedida. Avisamos a simpaticíssima garçonete que só tínhamos 20 minutos de almoço, no total. Pois não é que em seis minutos ela apresentou um dos melhores pescados que já experimentei, estalando na peculiar mesa? Uma delícia. Só a pressa estragou um pouco o momento. Aquele pescado certamente merecia melhor degustação, e o restaurante mais tempo de visita. Saímos correndo, mas ainda com tempo de assistir outro pescado chegando, carregado pelos pescadores, recém tirado da água que era logo ali, 10 metros a frente. Coisas da Ilha de Páscoa. Na foto acima, a pequena cidade de Hanga Roa, que se vira como pode isolada do resto do mundo pelas enormes distâncias.

Bueno, antes de começar a falar da Ilha em si, vamos nos preparar para ela. Quem vai também para a Polinésia, tem uma dificuldade extra com a bagagem. Além das limitações devido aos voos locais, as necessidades são totalmente diferentes. Enquanto na Polinésia tudo é leve, em Páscoa você vai precisar estar bem equipado. Os passeios são de turno cheio, ou dia cheio. O tempo vira a todo instante. Solaço, calorão maluco, e 5 minutos depois, chuva e vento fortíssimo. Depois, vira tudo de novo. E de novo. Desavisados foram de bermuda. Ficaram no bus boa parte de um dos passeios. É preciso levar mochila de ataque impermeável, jaqueta impermeável (mas leve, porque o sol volta rachando), tênis adequado para encarar caminhadas em pedras, o tripé das máquinas fotográficas, e uma proteção pra elas não se molharem. Memória para pelo menos umas 600 fotos e muitos vídeos, protetor solar, e bonés. Sério. Ir desequipado pode ser mais complicado do que parece.

Na foto acima, o primeiro altar de Moais a ser restaurado, ainda nos anos 60, o Ahu Akivi, que além de ser o único no interior da ilha, e também o único que fica de frente para o mar. Todos os outros estão olhando para o interior da ilha, como personalidades cuidando do seu povo.

No Parque Nacional Rapa Nui, Patrimônio Mundial da Unesco, ficam sete seções importantes da Ilha de Páscoa. Entre elas o Rano Raraku, que é uma cratera vulcânica localizada na parte baixa de Terevaka. Foi a principal pedreira da Ilha durante 500 anos, até o começo do século XVIII, e onde foi esculpida a maior parte dos famosos Moais da ilha. Um dos grandes mistérios sempre foi o modo de transporte dos Moais, que até hoje muito discutido. E realmente não é coisa simples. Páscoa sempre teve uma população muito reduzida, algo abaixo de 4 mil habitantes no total. Destes, quantos estariam aptos para esculpir e transportar Moais de 11 metros de altura e até 80 toneladas?

A Ilha Rapa Nui tinha diversas tribos, cada uma com sua agricultura, com seus escultores, e muita competição. E guerras, que inclusive quase extinguiram a raça e destruíram a ilha. O guia descendente direto de Rapa Nui nos contava sobre a cultura deles com detalhes, debochando de muitas das histórias contadas como oficiais sobre Pascoa. Desfazia e gritava ódio aos chilenos, que hoje possuem o território todo. Relatos imperdíveis! Na contratação do tur privado, exija um guia Rapa Nui. Será de uma riqueza fantástica. O guia nada simpático, apressado, mas mesmo assim legal e cheio de cultura local nos levou às primeiras tribos, as mais devastadas. Até demoramos para ver um Moai grande, inteiro. Porque boa parte, ou a maioria deles, foi destruída na guerra tribal que acabou com a civilização Rapa Nui. Então nessa primeira rodada pela ilha, um dos lugares mais surpreendentes de Páscoa, já que a grandeza e imponência dos Moais é esperada, fica por conta da fantástica cratera do vulcão Rano Kau. Um visão impressionante, grandiosa, em nada representada pela foto acima. O Rano Kau está na lista dos locais mais impressionantes que já vi. E estávamos voltando de Bora Bora…

Quem assistiu o filme Rapa Nui, que foi gravado na Ilha, e tirando o romantismo cinematográfico traz muita informação verídica, certamente lembra da competição do Homem Pássaro. O culto ao Homem Pássaro teria sido posterior ao culto aos Moais, após a Guerra dos Cem Anos das 12 tribos. A foto acima mostra o local da competição, na qual os melhores guerreiros de cada tribo desciam o penhasco, nadavam até três ilhotas onde um pássaro migratório fazia seu ninho e voltavam com um ovo do pássaro Manutara. O primeiro a voltar era declarado homem-pássaro e sua tribo governava a ilha durante um ano. Foi aqui mesmo que o nosso guia Rapa Nui nos mostrou um dos pontos impressionantes da visita: Viram a curvatura?, perguntou ele. Curvatura? Que curvatura? Ele apontou despretensiosamente para o mar, e um dos pontos mágicos da ilha se mostrou. A Ilha de Páscoa é o ponto habitado mais isolado do Planeta (3.700 Km da América do Sul, e 4.100 Km do Tahiti), e segundo o guia, olhando no horizonte se pode perceber a curvatura do Planeta Terra! Claro que não levei muita fé. Mas aí parei, olhei, e se foi ilusão de óptica ou não, não sei. Mas a impressão mesmo é que era possível identificar com certa facilidade a cuva do nosso planeta redondo. Uma visão impressionante e impactante. Momento impagável, mais um por conta de Páscoa!

Junto ao ponto da competição do Homem Pássaro fica o Orongo Village, as casas de pedra sempre usando a própria ilha como parede. Orongo era uma vila cerimonial, e lá também são vistas estruturas retangulares e ovais, provavelmente parte dos cerimoniais do Homem Pássaro. Não é muito o que ainda tem por lá, mas se pode ter uma boa ideia de como viviam os Rapa Nui. E que tal um fogão típico da Ilha?

A noite é calma na ilha, não há muito o que fazer. Mas um programa bem bacana é jantar no Te Ra’Ai, que prepara o prato ao modo antigo da ilha, cozinhando em pedras quentes, tudo enterrado. É interessante, e depois do jantar uma apresentação de dança típica em um auditório bem rústico junto ao restaurante torna a noite uma bela mostra da cultura antiga dos Rapa Nui. A brincadeira sai por uns 150 dólares o casal, mas vale a pena.

A grande maioria dos quase 1.000 Moais segue enterrada, quebrada, ou no chão. Praticamente tudo foi destruído durante a guerra das 12 tribos que quase aniquilou totalmente a população da ilha. A chamada Guerra dos Cem Anos aconteceu lá por 1700, e tratou de derrubar por terra os gigantes de mais de 600 anos. Ao longo do tempo, os Moais foram reerguidos, restaurados, recolocados em suas plataformas, e para nossa sorte, hoje, boa parte deles segue guardando a ilha, e nos contando um pouco da fantástica história da Ilha de Páscoa.

Quando comecei fazer esse post, a ideia era abordar Páscoa em um post único. Não deu. Assim como não foram suficientes 2 dias para visitar a minúscula ilha, e é possível devastar uma cidade turística média em 2 dias. Assim como foram tiradas mais fotos em 2 dias de Páscoa, do que uma semana toda na Polinésia, um dos lugares mais lindos do planeta. Moral da história: Não subestime Páscoa! Que o post II já está vindo por aí…

Fotos: Arquivo Pessoal, Trip Advisor (Fogão Rapa Nui)
Links Úteis:
Site Oficial
Restaurante Ta Ra'Ai
Operadora Kia Koa
Hotel Taha Tai

 

Lendas & Tribos

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Eu nunca resisti a Terra do Nunca, Camelot, Robin Hood,  Rei Arthur… Nunca resisti a uma bela lenda, um conto da antiga, uma fábula, uma estória ou história não confirmada. Desde sempre os velhos e misteriosos segredos das lendas me fascinam na sua face subjetiva, de acreditar ou não em seus caminhos. Um dos meus livros preferidos reúne boa parte dos grandes mitos, dos grandes personagens e ingredientes da terra das lendas. Estou falando de “As Brumas de Avalon”, uma obra tão boa de se ler que consegui a façanha de conhecer cada uma de suas muitas páginas durante o carnaval. Isso quando eu tinha uns 20 anos, o que aumenta a façanha. Não, eu não deixei de fazer festa. Não, eu não estava bêbado enquanto lia. Mas sim, estava absorvido pela fantástica estória (ou história?).

E é exatamente falando desta lenda fantástica, que envolve profundamente religião, natureza (e o respeito por ela que desde aquela época o homem começou a perder…) e muitos dos grandes mitos que conhecemos, que inauguro mais uma categoria aqui na Artigolândia: A Lendas & Tribos. Nesta categoria vamos flertar com as lendas, que embora sejam em teoria apenas mitos, sempre refletem uma face antiga de como as coisas aconteciam, ou como eram vistas, percebidas, e naturalmente aumentadas. Pela natureza humana, claro. No tempo onde registros eram escassos ou não existentes, apenas a palavra passada de boca em boca escrevia sua própria história, e aí a origem das lendas, que na minha visão lendária, sempre traz um conceito verdadeiro, por trás das estórias fantásticas. Eram um meio, talvez, para que o velho povo entendesse sua real importância, em um tempo onde o conhecimento e a instrução eram muito escassos. As Lendas eram uma necessidade? Eram. E talvez ainda sejam.

Poucos dias atrás encontrei um seriado chamado Merlin, que traz a sua versão pela época fantástica que reúne os mitos de Arthur, Excalibur, Morgana, Merlin, Avalon, e tantos outros que só por citar já comporia um extenso post. Tudo bem que o seriado da BBC flerta demais com modificações na lenda original, já que apresenta Merlin e Arthur com a mesma idade, ainda se descobrindo e apenas sonhando com o destino para o qual vieram. Mas qual das versões não modifica a essência da lenda? Pelo menos estamos falando de um seriado, que embora muito inferior em termos de produção a outros seriados com enredo muito mais fraco do que esta grande lenda pode proporcionar, tem tempo para amadurecer a história. Todos os filmes que tentaram abordar essa fantástica lenda não conseguiram chegar aos pés do que ela pode proporcionar. Pudera. É tanto mito, tantos personagens, ingredientes que seria impossível tentar chegar perto da totalidade do tema em algumas poucas horas. Já uma série, mesmo que começando tímida, com garotos brincando com dragões, tem todo o espaço para isso.

Por trás dos mitos, monstros, e ingredientes que hoje são tratados como fantasia, está a velha realidade nua e crua, onde o homem quando agride o que é sagrado, sofre as consequências de suas escolhas. Algo como o príncipe Arthur matar um Unicórnio, um ser mitológico sagrado, e como consequência ver seu Reino, Camelot, afligido pela falta de comida e água. Um consequência clara, um recado antigo, de que o homem deve tudo o que tem a mãe natureza. Em Avalon, é exatamente da natureza que nasce a Antiga Religião, a antiga força, o velho conhecimento. A certa altura da série, Merlin é obrigado a fazer uma escolha: Ou deixa que um menino druida seja morto pelo Rei, então pai de Arthur, ou salva o menino sabendo que um dia essa menino possa matar Arthur. Essa menino se chama Mordred, que para quem conhece a lenda, não são necessárias maiores explicações… São as escolhas de hoje, construindo nosso amanhã, porque Lendas ou Tribos, tudo remete às consequências do que fazemos, tanto no Reino das Lendas, quanto na nossa vida real atual. E nessa trilha fantástica, onde os caminhos são repletos de seres fantásticos, iremos, aos poucos, explorando seus mistérios e descobrindo que todos eles foram construídos para nos ensinar o que a nossa geração já deveria saber. As Lendas, quem sabe, eram as antigas escolas, que não existiam. Quem sabe?