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Foi lá no 302, naquele fabuloso primeiro ano de Capitolândia, que aprendi alguma coisa sobre instalações elétricas. Os personagens ainda eram o Cresponildo, o Gorducho e eu. O 302 era aquela residência caricata que já descrevi, mas ainda tinha algumas particularidades extras, que ainda vou contando…

Uma delas era o quadro de disjuntores do apartamento. Ele ficava atrás de um espelho todo cheio de estilo, talvez indiano, ou algo oriental não bem definido. Ele estava na lista mas não me lembro da origem dele, e nem do preço. Sim, existia uma lista, anexada ao contrato de aluguel, que citava cada item do apartamento (que era realmente mobiliado de cima a baixo), e informava o seu preço. Em dólar. Nunca esqueço das almofadinhas. 6 dólares cada. Esse item era caro. As pistolas árabes custavam em torno de 100 dólares, e confesso que quase “comprei” uma quando saímos. Mas lá estava o espelho. E atrás dele, aquilo… Um emaranhado de fios tão cretino que nem vou exemplificar visualmente agora, pois não cairia bem considerando minha profissão. O fato é que volta e meia esse monumento a segurança elétrica criava vontade própria. Se comunicava com a gente. Manda sinais de fumaça, sinais luminosos, e até sinais sonoros. Muito tranquilos, os dois estudantes de Eng Civil, o Gorducho e eu, administrávamos aquela entidade.

Em uma daquelas sexta-feiras, sempre muito movimentadas, a entiade quadro de disjuntores resolveu se manifestar de forma mais contundente. Emitiu sinais sonoros, luminosos e de fumaça. Todos ao mesmo tempo. E traduzindo elas com o protocolo de comunicação que desenvolvemos com a entidade concluímos: Este curto-circuito foi muito forte. Então nos pegamos literalmente de mala na mão, porque estávamos indo os três para a Interiorlândia. Não havia tempo de chamar um eletricista. Na verdade, se tivesse também não iríamos chamar. Mas também não havia tempo de conversermos a entidade a não queimar nossa casa. Então algum dos três genios, que não consigo lembrar qual foi, sugeriu: Desligamos a chave, e quando voltarmos domingo a noite, tentamos alguma coisa. Feito.

Viagem tranquila, 6 horas através da noite, para ficar menos de dois dias na Interiorlândia. No sabadão almoço de família reunida, conto feliz da vida da nossa perspicaz idéia de desligar tudo, eliminando assim o iminente risco de incendiar meio centro da Capitolândia. Então meu pai, que é do tipo quietão, mas quando fala ou é muito engraçado ou tem razão, pergunta: Desligaram é? Então imagino que tenham esvaziado a geladeira, porque na semana passada vocês levaram caixas e mais caixas de resfriados e congelados para lá…

Ops…

O milho do piá

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Essa foi outra pós festa. Era tudo o que havia pra fazer lá no Balneário, o que podíamos inventar se não era possível entrar na água? Festa ué. O dia pertencia ao sono. E a noite… Bem a gente tomava conta da noite. Em uma dessas noitadas, pegamos o tradicional bondinho da barra para casa. Dessa vez claro que eu estava muito esperto e não cheguei perto de trailer nenhum. Desci no lugar certo. Como o dia estava amanhecendo, sentamos na frente do prédio e ficamos esperando notícias do outro parceiro que já tinha vindo mais cedo.
Então o Babus morto de fome foi pegar um milho. Eu admiro quem acorda cedo para trabalhar. Na boa, eu odeio acordar cedo. Agora imagine sair as 5 da manhã de casa para vender milho verde. A senhora do milho verde era uma guerreira. As 6 da manhã o milho da senhora já estava na beira da praia, esperando os virados chegar das festas. E vinha o Babus atravessando a rua feliz da vida, babando grãos de milho para todo lado. Só que aparecem dois argentinos. Eu gosto da Argentina. Sei que a maioria dos brasileiros odeia argentinos. Mas eu amo tanto Buenos Aires, que não me importo com eles não. Até admiro o sangue quente deles, que tanta falta faz no nosso povo molenga que aceita tudo. Mas vinha lá aquela dupla de hermanos, grandes, eram grandes mesmo. Mas o fato é que os argentinos também tinham fome. E eram grandes. Como eles tinham fome, um deles pediu uma mordida do milho Babus. O Babus estranhou, respondeu que não, que ele é que tinha fome, e seguiu andando. Ou tentou. Porque o maior deles parou o Babus e disse em bom português: “Magrão, você não está entendendo, me dá o milho!”

E lá veio o Babus, ainda com um grão de milho no dente esbravejando: “Fui roubado, me roubaram o milho! E você seu filho da mãe, pára de rir! Eu fui roubado! Roubaram o milho do piá!“.

Ainda sem conseguir parar de rir, entramos no elevador. Eu vivia zoando aquele elevador. Como sempre dei um cascudo na porta com ele em movimento. Ele deu aquela parada brusca mas muito legal, como sempre. O Babus furioso, porque dizia ele estar precisando comparecer ao Wilson Carlos (WC) para o número 1. Mas depois do episódio do milho, sinceramente duvido. Devia ser o número 2. Certamente o 2. Já que ele tinha tanta pressa dei a segunda porrada no elevador, que via de regra colocava ele de novo para funcionar. Via de regra, porque dessa vez não funcionou. Eu quase passei mal. De rir. O Babus ficou tão furioso, e eu ria tanto que mal podia ficar de pé. O cara ficou mesmo furioso, certo que era o número 2. Certo. Várias porradas depois, e nada do elevador se mexer. Não tinha jeito, tivemos que pagar o mico de soar o alarme e acordar o prédio todo as 6 da manhã para sermos resgatados. E fomos, depois de quase 20 minutos soando o alarme… E o Babus lá, enquanto eu ria, segurando o número 2!