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O povo pelo povo.

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Sempre defendi um fato polêmico, bem polêmico na verdade, sobre nós, o povo. Quando falo de políticos, e os leitores mais antigos aqui da Artigolândia sabem disso, sempre credito uma boa parcela da canalhice que é nossa política ao povo. Sim, somos também culpados por tudo isso. Na postagem sobre a tragédia no Rio, um leitor comentou exatamente esse ponto, que se o povo não tem educação para manter as ruas limpas, se ele não faz a sua parte, não adianta cobrar da defesa civil ou do governo. E é sim verdade. Não existe medida isolada para o Brasil.
Pegando o gancho da questão dos alagamentos que assolam muitas das nossas cidades, as soluções são ligadas e dependentes. Não, a defesa civil não vai resolver sozinha. Não, só o governo e o plano diretor não vão resolver sozinhos. Sim, o povo precisa participar e fazer sua parte. Mas todos precisam agir, e precisa ser ao mesmo tempo. Nada isolado vai funcionar. Mas porque então os representantes do povo é que são sempre cobrados? Ora, porque eles é que ganham para isso. Esse é o trabalho deles! Mas e o povo? Ah, o povo precisa sim fazer sua parte, lógico que precisa, sem dúvida nenhuma. Sim, eu sei, tem o fator educação, tem o fator condições básicas de sobrevivência, oportunidades… É, tem. Tem muito. Mas um dia precisamos começar, ou nada vai mudar. E quem vem primeiro, a galinha ou o ovo? Bom, nesse caso, de quem cobra quem, de quem faz sua parte primeiro, esse galinheiro precisará ser mágico. Vai ter que ter galinha recém nascida botando ovo! E ovo aparecendo sem galinha para colocá-lo. Ah vai.

O povo precisa sim fazer por ele mesmo. E esse ano mais uma oportunidade se aproxima, é temporada de eleições. É o momento em que o jogo vira, e quem pede são os políticos, e não mais o povo. É temporada de lembrar tudo o que aconteceu, de tomar memorex e lembrar dos ladrões, dos canalhas, dos hipócritas e varrer com eles com a mesma eficiência que as multidões se uniram no último reality show brasileiro, o BBB 10, que quebrou o record mundial de votos. É hora de mostrar que a parte do povo será feita. Pelo menos a parte da escolha correta dos seus representantes. Depois, tem todas as outras…

Sim, eu lembro, eu mesmo disse que o povo não está preparado, não tem educação suficiente, não tem preparo para escolher, o povo troca seu voto pelo pagamento de uma conta de luz, por um rancho, por uma promessa vazia. É, é verdade. Mas também é verdade que boa parcela da população já tem essas condições, e engajada, pode sim preparar quem não está preparado. Pode indicar, pode ajudar a formar opinião, pode fazer a diferença. Mas para isso, claro, não pode haver trocas de favores. Quem o fizer, tem que fazer pelo povo e para o povo. Não pela sua empresa, pelo seu bolso, ou pela sua própria ideologia política, já cega pelo tempo. É tempo da galinha nascer junto com o ovo. É tempo de jogar ovo em quem merece, é tempo de chocar os bons que podem alguma coisa fazer. Mas para isso, nós, o povo, temos que fazer a nossa parte. As eleições estão aí, é um bom começo.

Ou vamos ficar esperando a galinha dos ovos de ouro?

Uma coisa que me deixa maluco em conversas de buteco, é a tal da depreciação. Quanto é difícil elogiar alguém, sem depreciar outro alguém! Como é difícil! Chega um chefe novo, e todos dizem: Caramba, como esse cara é legal! Muito diferente daquele outro safado que se achava o máximo! Que diferença! E isso vale, com o professor, com o colega de aula, com o vizinho, com o goleiro do time do coração… A lei da depreciação no elogio é tão válida que um elogio sem depreciar outra pessoa soa até estranho!

Então ontem, chegando na portaria do edifício onde moro, encontro o novo síndico, eleito 3 meses atrás. E já chego feliz, elogiando, falando da nova cerca elétrica (já que moro no Brasil, país onde os cidadãos moram no presídio e os bandidos fora dele), das modificações que ele anda fazendo, e claro: Criticando a ex-síndica! Porque agora sim o prédio tem pulso, antes parecia tudo abandonado, ninguém se importava com nada… Enfim. Segui uns 15 minutos naquele caminho que vivo criticando, o elogio depreciativo. Afaga de um lado batendo no outro. Parece que elogio é um artefato finito, que para entregar algum, você precisa fabricar ele retirando de outro lado através da depreciação. Parece que para entregar com a mão direita, precisa tirar com a mão esquerda. É algo que realmente me intriga e me incomoda.

Findada a sessão elogios ao novo síndico, que ouvia tudo em um silêncio perturbador, segui prédio adentro. Mas segui caminhando quase em dúvida, intrigado com a indiferença com a qual o síndico que vinha fazendo um excelente trabalho ouvia a tudo que eu falava. Todos adoram elogios! E esse senhor parecia ficar cada vez mais contrariado ao ouvir o quanto ele era mais competente que a antecessora dele, aquela mulher que ninguém sabia que existia! Então já quase no elevador, o porteiro me chama todo sem jeito:

- Senhor, senhor!
- Fala Zé Mario! Mas senhor não, por favor!
- Então, é só para avisar, que quando for elogiar o síndico, não fale tão mal da esposa dele! A ex-síndica!

É. É moleza ficar intrigado e irritado com o que os outros fazem. Portanto, é como eu digo: Depreciou? Chama logo o síndico!